Archive for the Oscar 2009 Category

Defiance: uma revolta a mais na Segunda Guerra

Posted in Cinema de Guerra, Oscar 2009 on 24/02/2009 by cinemacc

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Defiance (Um Ato de Liberdade, EUA, 2008) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Edward Zwick; Clayton Frohman. Fotografia: Eduardo Serra. Música: James Newton Howard. Elenco: Daniel Craig; Liev Schreiber; Jamie Bell; Alexa Davalos; George MacKay; Alan Corduner; Mia Wasikowska.

1 Indicação Academy Awards®: Trilha Sonora.

1 Indicação Golden Globes®: Trilha Sonora.

 

Edward Zwick é um desses diretores que prezam por enfatizar a qualidade histórica de seus filmes. Sua preocupação mais recorrente é com o tema da liberdade e da redenção. Suas principais obras são Tempo de Glória (1989, cujo tema é a formação do primeiro regimento negro durante a Guerra de Secessão), O Último Samurai (2003, sobre a luta entre samurais e as tropas do imperador Meiji) e Diamante de sangue (2006, que trata dos problemas sociais em Serra Leoa). Este Um Ato de Liberdade segue o propósito da luta contra a opressão, mas o terreno agora é a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a maior qualidade do diretor é também o seu maior defeito. Já que suas obras soam como um déjà vu. A estrutura dos filmes se assemelham e, inclusive, há passagens que são meras cópias cinematográficas – quase auto-plágios. Exemplo disso são as cenas de treinamento existentes tanto no filme sobre a Guerra da Secessão, quanto no de samurais… e, também, neste sobre o conflito da Segunda Guerra.

Mas, ainda que exista esse problema de concepção artística por parte do diretor, suas obras em geral são sempre acima da média. E Um Ato de Liberdade é um bom retrato de um evento ainda pouco explorado, mesmo em se tratado do conflito mundial ocorrido entre 1939 e 1945: o avanço nazista sobre a União Soviética, em especial na Bielo-Rússia, que é o campo de batalha enfocado.

A produção, baseada no livro de Nechama Tec Defiance: the Bielski Partisans, é inspirada em fatos. Filmada na Lituânia, os diálogos seguem basicamente o russo e o inglês (com sotaque) e as cenas são grandiosas nos planos de combate e nos conflitos dos personagens em busca da fuga.

O filme começa em 1941, e trata da história de três irmãos Bielski, Tuvia (Daniel Craig), Zus (Liev Schreiber) e Asael (Jamie Bell), judeus que fogem da Polônia ocupada pelas tropas nazistas. Mas as suas lutas vão além da simples fuga. Eles preocupam-se em ajudar outros judeus perseguidos, montando um acampamento em meio a uma floresta na Bielo-Rússia, com a finalidade de combater os alemães. Esse ato de coragem e resistência atravessa várias complicações, como brigas entre irmãos e desconfiança entre os acampados.

Um elemento que colabora tanto positivamente quanto de forma negativa é a ação da força de resistência soviética, no caso os partisans (um membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro). Zus, descontente com o comando de Tuvia, junta-se a luta dos soviéticos enquanto os demais ficam no acampamento. Os partisans são mostrados de maneira negativa, parecendo um bando reunido sem objetivos e fora de controle, como o filme leva a crer nos desfecho.

Uma frase de Tuvia guia a trama: “nossa vingança é viver”. Isso aliado a uma clara menção ao Pessach, a páscoa judaica (que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Êxodo) tornam a obra de Zwick um campo de reflexão acerca do que foi, ainda que já bastante discutido, o holocausto para uns ou shoah para outros. Essa sequência da travessia é indubitavelmente a mais bela do filme, uma vez que fotografia e trilha sonora colaboram para torná-la verossímil e tocante.

Enfim, vale a pena ver Um Ato de Liberdade? Sim, vale. Mas procure assistir livre das antevisões dos outros filmes de Zwick, e sem associá-lo ao grupo de grandes filmes sobre holocausto, porque cada um destes filmes tem um olhar sobre o assunto, ainda que, em geral, todos definham para o mesmo fim… e para saber se Um Ato de Liberdade percorre essa trajetória você deverá vê-lo.

Assim, um até breve!

Macc Avaliação: 8

Doubt: o preço de uma dúvida

Posted in Drama, Oscar 2009 on 22/02/2009 by cinemacc

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Doubt (Dúvida, EUA/FRA, 2008) Direção: John Patrick Shanley. Roteiro: John Patrick Shanley. Fotografia: Roger Deakins. Música: Howard Shore. Elenco: Meryl Streep; Philip Seymour Hoffman; Amy Adams; Viola Davis; Alice Drummond; Lloyd Clay Brown; Audrie J. Neenan.

5 Indicações Academy Awards®: Atriz (Meryl Streep); Atriz Coadjuvante (Amy Adams); Atriz Coadjuvante (Viola Davis); Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman); Roteiro Adaptado.

5 Indicações Golden Globes®: Atriz (Meryl Streep); Atriz Coadjuvante (Amy Adams); Atriz Coadjuvante (Viola Davis); Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman); Roteiro.

 

Quem for assistir Dúvida poderá sair da sessão louco pra discutir e conversar com alguém sobre as soluções do longa, porque é justamente o resultado que o título do filme propõe. O espectador acompanha o roteiro que traz indícios e sinais, mas que apenas abre possibilidades sem se preocupar em concluí-las. O que, a meu ver, funciona de maneira positiva para esta história.

O filme é baseado na peça de John Patrick Shanley que também roteiriza e dirige o longa. A trama se passa no ano de 1964 e tem como cenário uma escola (St. Nicholas) do Bronx. Um padre chamado Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta acabar com a rigidez dos costumes da escola, que é controlada pela irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), diretora que acredita no poder do medo e da disciplina para manter a ordem. No local estuda Donald Miller, o primeiro aluno negro aceito na comunidade. Mas quando a irmã James (Amy Adams), uma jovem freira, conta à irmã Aloysius sobre sua suspeita, induzida pela culpa, de que o padre Flynn está dando atenção exagerada a Donald, a irmã Aloysius se vê motivada a empreender uma cruzada para descobrir a verdade e banir o padre da escola.

A obra sustenta-se pela busca da necessidade da prova ou da evidência, tornando a moral da irmã Aloysius o guia para o controle da situação. A sua amargura e suas estratégias (visando cooptar as demais irmãs, forjando provas ou induzindo testemunhas) são dignas de uma grande vilã.

As interpretações são um show a parte. Amy Adams imprime na medida certa o tom ingênuo e esperançoso da jovem freira. Philip Seymour Hoffman ao mesmo tempo que transmite um confiança, vibração e carisma, também exala insegurança. Meryl Streep, por sua vez, exagera bastante na sua caracterização, pesando contra a sua personagem a idéia autoritária que faz todos crerem ser ela a vilã da história. Mas ainda assim é uma boa atuação. Já Viola Davis rouba as poucas cenas em que aparece. No papel da mãe do jovem negro ela é visceral e verdadeira nas suas declarações.

A condução da narrativa é envolvente e o conflito moral é realçado pelo juízo de valor cristão e pela convicção racional da irmã Aloysius. A luta pessoal pelo poder, pelo controle e pela manutenção do bem-estar é uma constante do roteiro nesta duvidosa batalha em que a única certeza é a incerteza.

 

Então, não tenha dúvidas, e até breve!

Macc Avaliação: 8,5

The Reader e um segredo a mais da Segunda Guerra

Posted in Cinema de Guerra, Drama, Oscar 2009 on 21/02/2009 by cinemacc

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The Reader (O Leitor, EUA/ALE, 2008). Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare. Fotografia: Chris Menges; Roger Deakins. Música: Nico Muhly. Elenco: Ralph Fiennes; Kate Winslet; David Kross; Jeanette Hain; Lena Olin; Bruno Ganz.

5 Indicações – Academy Awards®: Filme; Direção; Atriz (Kate Winslet); Fotografia; Roteiro Adaptado.

4 Indicações – Golden Globes®: Filme – Drama; Direção; Atriz Coadjuvante (Kate Winslet); Roteiro.

 

Há um aspecto muito importante ao se descobrir o filme O Leitor. Trata-se de um exemplo de produção cujos produtores foram grandes também diretores e faleceram antes do filme ser lançado: estamos falando de Sidney Pollack e Anthony Minghella. Essa trágica coincidência pode ter dado relevo à obra de Stephen Daldry no que se refere ao quesito premiações, já que se trata de uma homenagem, de forma merecida, ao trabalho desses diretores que também deixaram seus nomes gravados no universo da produção.

Mas vejamos o que O Leitor nos oferece. A obra é uma adaptação do romance homônimo (Der Vorleser) do escritor alemão Bernhard Schlink e tematiza um assunto bastante recorrente em produções cinematográficas: a questão do holocausto e as heranças da Segunda Guerra Mundial.

A obra se desenrola em dois grandes planos. O primeiro se passa no ano de 1995, quando Michael Berg (Ralph Fiennes) é apresentado como um advogado bem-sucedido, e o segundo ocorre em forma de suas lembranças na Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial. A obra vai remontando ao caso de verão entre o jovem Michael (David Kross) e uma mulher mais velha, Hanna Schmitz (Kate Winslet), até o posterior reencontro deles dez anos depois, em um julgamento no qual ela é acusada de um crime de guerra.

A técnica empregada das leituras acompanhadas pelo furor da paixão dos amantes, desperta uma interessante carga de sensualidade, que são fundamentais para a compreensão narrativa da obra, já que o amor e a memória acompanha suas trajetórias.

Nesse ponto é que reside um problema de O Leitor: a frieza narrativa da trama. Há uma ausência de clímax durante o julgamento de Schmitz, ponto-chave da história que nos leva a descortinar os segredos e as culpas da protagonista. Porém, esse segredo que ela guarda é por demais previsível conforme a lógica conduzida pelo diretor. O que não descaracteriza a qualidade da história, bastante acima da média em se tratando de um Drama com raízes na Segunda Guerra Mundial.

A atuação de Kate Winslet, que vejo enquanto protagonista e não como coadjuvante como algumas das premiações que concorreu apontaram, é dosada e guarda os segredos e as feridas de uma mulher amargurada. Sua beleza desnuda narra muito da obra, pois podemos ver as marcas físicas de uma pessoa, mas não sua essência. E o diretor explora bastante isso na primeira hora de filme.

Stephen Daldry é correto no sentido técnico, justamente por investigar as complexidades da culpa, evidenciando as questões da sociedade guiada pela moralidade, mostrando os medos e segredos escondidos pelo tempo. A carga emocional possui um tom sombrio, próprio daqueles que admitem a culpa, mas o filme é um tanto previsível na busca das soluções.

Então, desvende esse segredo, e até breve!

Macc Avaliação: 8,5

Milk em busca da dignidade

Posted in Cinema e Política, Oscar 2009 on 20/02/2009 by cinemacc

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Milk (Milk – A Voz da Igualdade, EUA, 2008). Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Dustin Lance Black. Fotografia: Harris Savides. Música: Danny Elfman. Elenco: Sean Penn; Emile Hirsch; Josh Brolin; Diego Luna; James Franco; Alison Pill.

8 Indicações – Academy Awards®: Filme; Direção; Ator (Sean Penn); Ator Coadjuvante (Josh Brolin); Edição; Figurino; Trilha Sonora Original; Roteiro Adaptado.

1 Indicação – Golden Globes®: Ator – Drama (Sean Penn).

 

Filmes como Milk – A Voz da Igualdade são importantes nos dias de hoje. Principalmente porque tratam de um tema que vai além do que a própria trama enfoca, no caso o direito dos homossexuais. A obra simboliza a necessidade humana em opinar e ser livre das amarras do preconceito, sendo justamente um tratado sobre a dignidade e sobre a igualdade.

Entretanto, a relevância e o peso que Gus Van Sant imprime à obra é justamente por se tratar de uma luta contra a homofobia em um dos Estados norte-americanos onde mais forte estava a resistência. Baseado em fatos, Milk – a Voz da Igualdade trata da história do primeiro candidato gay oficialmente eleito na Califórnia e as suas lutas e embates contra o preconceito em San Francisco.

O retrato da figura de Harvey Milk, no entanto, não é de todo original, principalmente por estar inspirado no documentário The Times of Harvey Milk, de Rob Epstein, lançado em 1984 e que venceu o Oscar® nesta categoria. (O filme, dividido em 11 partes, pode ser conferido no youtube – sem legendas – http://www.youtube.com/watch?v=2zbrMPhqwS4&NR=1. Abaixo segue o trailer:

Porém, mesmo assim, é o primeiro grande filme a contemplar os direitos civis pela perspectiva do movimento gay. A trama se dá a partir do foco narrativo construído sobre uma gravação em cassete que Milk fez, ao completar 48 anos, para ser reproduzida em caso de morte, agindo, assim, como um narrador da própria história.

A utilização de imagens de arquivo e recortes de jornais dá credibilidade documental a história, assim como a colaboração de amigos e pesquisadores sobre a vida do político ressaltam a preocupação com a exposição clara dos fatos.

Outro elemento que merece menção é a seleção de atores e a sua semelhança com as personalidades tratadas no filme. Todos os personagens estão muito bem caracterizados, em especial o inseguro antagonista Dan White (Josh Brolin) e, é claro, o protagonista Harvey Milk, que tem um retrato definitivo na interpretação extraordinária de Sean Penn.

O relato da história das tentativas eleitorais de Milk, são o mote da história, mas o diretor consegue dosar esses elementos políticos com a vida pessoal do protagonista, retratando suas histórias de amor e seus desejos pessoais.

Van Sant consegue transcender os gêneros cinematográficos biografia, drama e romance e estabelece sua obra como um documento humano que aborda, acima de tudo, a necessidade de proporcionar esperança às pessoas e à sociedade. Um filme acima de qualquer preconceito.

 

Então, aprecie grandes interpretações, e até breve.

 

Macc Avaliação: 9

Frost/Nixon: cara a cara com a verdade

Posted in Cinema e Política, Oscar 2009 on 19/02/2009 by cinemacc

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Frost/Nixon (Frost/Nixon, EUA/ING/FRA, 2008). Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan. Fotografia: Salvatore Totino. Música: Hans Zimmer. Elenco: Frank Langella; Michael Sheen; Sam Rockwell; Kevin Bacon; Oliver Platt; Rebecca Hall.

5 Indicações – Academy Awards®: Filme; Direção; Ator (Frank Langella); Edição; Roteiro Adaptado.

5 Indicações – Golden Globes®: Filme; Direção; Ator – Drama (Frank Langella); Roteiro; Trilha Sonora.

 

Eu sou sincero quando não gosto das escolhas que alguns diretores recorrentemente tomam. Meus amigos sabem que tanto Pedro Almodóvar quanto Steven Spielberg não possuem minha admiração. Ainda que eu saiba elogiar trabalhos seus, sempre há algo que me possibilita dizer um “porém”. Outro diretor que posso colocar nesse roll é Ron Howard, que de menino-ator tornou-se um dos diretores preferidos por Hollywood.

Depois de fazer filmes que vão dos bons Apolo 13 (1995) e Uma mente brilhante (2001), passando pelos blockbusters O código daVinci (2006) e Anjos e demônios (que será lançado em 2009) até os tenebrosos O grinch (2000) e Edtv (1999), o produtor-ator-diretor apostou em um sucesso da Broadway para não errar na escolha: Frost/Nixon. E tenho que admitir que ele acertou no projeto e, principalmente, nos elementos de linguagem cinematográfica que emprega.

Para quem pretende ver o filme é interessante conferir trechos da entrevista original exibida na televisão no site: http://www.frostnixon.com/ ou mesmo no youtube. Aqui colocamos o trailer promocional do dvd da entrevista original:

O filme de Howard é baseado em uma peça de Peter Morgan, que também é o roteirista. A obra é uma dessas produções feitas mais para norte-americanos do que para o público em geral. Ainda assim, sua preocupação em recuperar a história do ex-presidente Richard Nixon, que renunciou devido ao escândalo de Watergate, é feita de maneira correta e bastante envolvente.

A obra se passa no ano de 1977, quando Nixon (Frank Langella), nada disposto a assumir a culpa pelo escândalo, concordou em conceder uma entrevista. O jornalista britânico David Frost (Michael Sheen), apresentador de programas de entretenimento, com reputação de mulherengo e fútil, foi quem procurou realizar o feito de conseguir uma confissão de culpa do ex-presidente, com a finalidade de se autopromover.

A edição é ágil e dá o dinamismo necessário principalmente no confronto frente à frente entre Nixon e Frost. A técnica empregada de ressaltar a observação do ouvinte, assim como a reação dos bastidores no momento de cada pergunta e resposta, dá a tensão certa a recriação do que foi um momento histórico da televisão. Como sugestão é interessante assistir também Todos os homens do presidente (1976), de Alan J. Pakula e Nixon (1995), de Oliver Stone, que juntamente com este Frost/Nixon formam uma bela trilogia do político republicano e 37º presidente norte-americano.

Porém (e sempre ele), alguns personagens coadjuvantes do filme que são enfatizados na direção, somem e se apagam no decorrer da obra. Exemplo disso é a figura feminina e caso de Frost, Caroline (Rebecca Hall). A sua participação serve pra realçar a imagem fútil do jornalista, e também para injetar dúvida quanto o caráter dela em relação a produção da entrevista. Mas, uma personagem que fala bastante na primeira hora de filme e chama a atenção de todos no filme, inclusive do próprio Nixon, cala-se e praticamente vira uma espectadora e um adereço da história. Pode ter sido proposital, mas não convence.

Ainda assim, o filme é um grande êxito, prendendo o espectador, com ótimos diálogos, e magníficas interpretações, em especial dos protagonistas Langella e Sheen. Ao recriar as quatro longas sessões de perguntas e respostas, a obra foca na busca pela verdade e pela confissão. E devo admitir que é o trabalho do diretor Howard que consegue imprimir um tom humano às personagens sem que para isso tenhamos compaixão por Nixon. E isso é fundamental.

Então, testemunhe a verdade, e até breve.

Macc Avaliação: 9

Slumdog Millionaire ou táticas para acertar na escolha

Posted in Oscar 2009 on 17/02/2009 by cinemacc

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Slumdog Millionaire (Quem Quer Ser um Milionário?). Direção: Danny Boyle. Roteiro: Simon Beaufoy. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Música: A. R. Rahman. Elenco: Dev Patel; Anil Kapoor; Freida Pinto; Madhur Mittal; Azharuddin Mohammed Ismail; Ayush Mahesh Khedekar.

10 Indicações – Academy Awards®: Filme; Direção; Edição; Fotografia; Trilha Sonora Original; Edição de Som; Mixagem de Som; Roteiro Adaptado; Canção “Jai Ho”; Canção “O Saya”.

4 Indicações – Golden Globes®: Filme – Drama; Direção; Roteiro; Trilha Sonora.

 

O que chama a atenção no cinema indiano, em especial em Bollywood? Seria seu tom exótico? Seria a explosão da cor? Seria o enredo? Seria a musicalidade? Seria a notoriedade? Seria uma pergunta? Ainda que Quem ser um milionário? não seja de fato uma produção indiana, ele possui de direito a resposta para cada uma dessas perguntas. E essa é a fórmula do sucesso da produção.

Baseado no livro Q & A, de Vikas Swarup o filme é um triunfo especialmente da montagem, da fotografia e da trilha sonora. A obra trata a questão do amor de maneira bastante sutil. A estrutura narrativa do roteiro camufla esse tema universal, dividindo a ação dramática em três tempos, todos girando em torno de Jamal (Dev Patel), jovem indiano que está a uma pergunta de faturar o prêmio milionário no mais popular show de televisão da Índia. Porém ele é analfabeto, vindo das grandes favelas de Bombaim (hoje Mumbai), o que deixa o apresentador do programa (Anil Kapoor) desconfiado.

A edição de Quem quer ser um milionário? organiza a estrutura temporal do enredo logo na abertura, de forma que ela seja facilmente compreendida pelos espectadores. Temos, assim, o presente (um interrogatório de Jamal na delegacia de polícia), o passado imediato (o espetáculo de televisão, ocorrido pouco antes) e o passado remoto que funciona enquanto memória (longos flashbacks que, a pretexto de mostrar como Jamal sabia as respostas de cada pergunta feita no programa, relembram a trajetória sofrida dele). É a edição que soluciona e dá credibilidade ao filme, mesmo que o fluxo de memória se dê de forma simplificada, sendo representado de maneira linear às perguntas e respostas que o filme expõe.

Um aspecto muito importante e que colabora para o sucesso do filme é a sua trilha sonora e suas canções. São músicas envolventes, ágeis e emotivas que dão o tom à trama. E é ainda por cima uma dessas trilhas que podem ser ouvidas sem necessariamente estarem no filme. “Jai Ho”, “O Saha”, e “Paper planes” (essa indicada ao Grammy) são dançantes, característica essa do cinema indiano.

A história de amor impregna o sentido do filme, e o aspecto social das favelas indianas e a situação miserável de seus habitantes são enfocados de maneira bastante explosiva visualmente. A obra possui um desfecho emocionalmente grandioso, engajando a platéia diretamente dentro do drama de Jamal e expondo o amor enquanto caminho e enquanto solução.

O sofrimento de Jamal resposta a resposta, o guia em sua busca pelo amor. Há magia nessa relação especialmente por ser ele um vira-latas (tradução possível para Slumdog), e mesmo os dessa estirpe amam e merecem o sucesso, ainda que o triunfo financeiro possa ser a resposta para algo maior, que talvez o próprio caminho do amor exija. Mas quem de nós nunca sonhou em ser milionário um dia ou mesmo não procurou o amor nas ondas do destino. É disso que trata Danny Boyle e é esse seu triunfo.

 

Acerte na resposta, e até breve!

Macc Avaliação: 9,5

 

The Curious Case of Benjamin Button e a excelência do tempo

Posted in Oscar 2009 on 16/02/2009 by cinemacc

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The Curious Case of Benjamin Button (O Curioso Caso de Benjamin Button). Direção: David Fincher. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Claudio Miranda. Música: Alexandre Desplat. Elenco: Brad Pitt; Cate Blanchett; Julia Ormond; Elias Koteas; Jason Flemyng; Taraji P. Henson.

13 Indicações – Academy Awards®: Filme; Direção; Ator (Brad Pitt); Atriz Coadjuvante (Taraji P. Henson); Edição; Fotografia; Direção de Arte; Figurino; Maquiagem; Trilha Sonora Original; Mixagem de Som; Roteiro Adaptado; Efeitos Visuais.

5 Indicações – Golden Globes®: Filme – Drama; Direção; Ator (Brad Pitt); Roteiro; Trilha Sonora.

Vi O curioso caso de Benjamin Button quatro vezes, até agora. Chorei e me emocionei todas as vezes que vi. A discussão de temas perenes como vida, perda e amor é algo que acompanha nossas histórias… e claro, toca o espectador de maneiras distintas. Logo, sei de amigos que não chegaram ao ponto de derramar lágrimas, mesmo se emocionando e avaliando-o de maneira positiva.

É o que eu penso do filme de David Fincher também. É uma obra que trata de maneira sutil dos aspectos positivos da vida, ainda que com uma roupagem melancólica.

A emoção toma conta de O Curioso Caso de Benjamin Button. O filme trata de um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo, ‘remando contra a corrente’. Baseado em um conto de Francis Scott Fitzgerald, a partir de uma idéia de Mark Twain, o longa de David Fincher possui um tom melancólico e sombrio, que leva o espectador a buscar uma identificação com os acontecimentos que cercam o protagonista.

A obra é estruturada em três grandes blocos narrativos calcados em eventos históricos: o primeiro mostra a infância e adolescência do protagonista no período entre-guerras; o segundo se passa durante a Segunda Guerra Mundial e enfatiza as primeiras experiências sexuais e emocionais; e o terceiro focaliza o personagem, durante os anos 1960 e 1970, como um idoso preso num corpo jovem, tendo que tomar algumas decisões difíceis. Estas passagens são alinhavadas por uma seqüência que se passa em 2005 e mostra Daisy (Cate Blanchett), uma mulher de 80 anos, no leito de morte, enquanto o furacão Katrina ameaça chegar a Nova Orleans, tema esse bastante recente na cinematografia norte-americana.

A trilha sonora e a fotografia do filme colaboram para o tom emocional destinado à história de Benjamin e a passagem do tempo. A sonoridade, inclusive embala o tom triste do destino do protagonista, que participa da vida das pessoas mais como um expectador do que como um catalisador (o inverso do que ocorre em Forrest Gump – O Contador de Histórias e filme do mesmo roteirista de Benjamin Button.

A atuação dos protagonistas é correta e o destaque dado a importância do rosto de Brad Pitt é digna de Oscar®. Ele faz todas as fases do protagonista, valendo-se da tecnologia dos efeitos visuais e da excelente maquiagem. Cate Blanchett também está bem na obra, ainda que abaixo de outros trabalhos anteriores. Os coajuvantes que merecem destaque são Julia Ormond, que faz a filha de Daisy no filme e é a narradora da história e Taraji P. Henson intrepreta a mãe de Benjamin, de maneira envolvente e convincente.

As reflexões sobre vida e morte tratadas no filme de maneira séria e são conduzidas por uma história de amor, entre Benjamin e Daisy. A idéia de que a vida é uma série de pequenos eventos que estão interligados conduz a trama, que é um ótimo exercício emocional, sugerindo que o destino também está ligado a impossibilidade do retorno.

Mesmo as quase três horas de duração parecem rápidas, já que o roteiro envolve o espectador, que fica a refletir sobre a idéia original da história e sobre o desenlace pungente.

 

Assim, boas lágrimas,

e até breve!

 

Macc Avaliação: 9,5