Archive for the Cinema de Revolução Category

Che – Part One: o argentino e seus ideais

Posted in Cinema de Revolução on 18/02/2009 by cinemacc

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Che: Part One (Che – O Argentino, FRA/ESP/EUA, 2008) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Peter Buchman. Fotografia: Steven Soderbergh. Música: Alberto Iglesias. Elenco: Benicio Del Toro; Demián Bichir; Rodrigo Santoro; Julia Ormond; Jorge Perugorría; Santiago Cabrera; Catalina Sandino Moreno.

2 Indicações Cannes Festival: Filme; Ator (Benicio del Toro).

Um projeto epicamente audacioso: contar a vida de uma das personalidades mais emblemáticas do século XX – Ernesto Che Guevara – com riqueza de detalhes históricos dos antecedentes da tomada do poder em Cuba até sua morte nas selvas bolivianas.

Esse foi o propósito que Steven Soderbergh teve quanto tomou à frente dessa produção, que já almejava tornar realidade fazia alguns anos. O diretor contou com o apoio irrestrito de um escudeiro: Benicio del Toro que além de protagonista também foi um dos produtores.

Lançado em Cannes de forma una, ou seja, sem divisão por partes, o filme teve mais de quatro horas de exibição e contou com algumas críticas desfavoráveis, em especial no que se refere à segunda parte deste complexo épico, que deixaremos para comentar em outro post.

A opção por dividir a obra em dois foi bastante acertada, em especial porque se tratam de adaptações inspiradas em livros distintos escritos por Che Guevara. No caso esta primeira parte, refere-se ao diário de memórias Reminiscências da Guerra Revolucionária Cubana (no Brasil ele divide-se em várias publicações entre as quais destacamos Sierra Maestra: da Guerrilha ao Poder – Passagens da Guerra Revolucionária e Textos Revolucionários.

Che – O Argentino está estruturado de maneira bastante ágil e interessante. As ações em Sierra Maestra e em outras regiões cubanas, pré-vitória contra Fulgêncio Batista, enfocam as dificuldades, os sofrimentos, as privações e, especialmente, as lutas armadas, enquanto que estas passagens intercalam-se com sequências em Nova York, em que o revolucionário dá uma entrevista à Lisa Howard (Julia Ormond) e discursa na sede das Nações Unidas ocorridas em 1964, e filmadas em preto-e-branco, impregnando um tom documental ao filme, reconstruindo imagens e vídeos históricos da figura do líder, que nesse momento já possuía notoriedade.

Che Guevara e Lisa Howard, em foto da época da entrevista.

Che Guevara e Lisa Howard, em foto da época da entrevista.

Um aspecto bastante importante é a construção humana do líder Che Guevara, e a ausência de preconceito com que é enfocado, o que é bastante interessante em se tratando de um filme feito com dinheiro norte-americano. Assim, o herói argentino não fica preso nem como mito nem como vilão, mas como um soldado guerrilheiro, com objetivos e com leis que devem ser respeitadas. Algumas passagens realçam o lado humano do protagonista, como a preocupação com a exigência em recrutar maiores de idade, com a educação e a alfabetização, mesmo que se valesse de mediadas enérgicas contra desertores e contra quem não respeitasse as leis impostas pelos guerrilheiros.

O diretor consegue dosar ótimas cenas de ação, com um filme de idéias. Soderbergh procura esclarecer didaticamente a geografia da ilha cubana, preocupando-se com o espectador que não está habituado à história da Revolução Cubana. Já Del Toro dá carisma e força ao protagonista. As fraquezas físicas de Che também são interpretadas de maneira pertinente na obra. A asma e o cansaço, são elementos que dão credibilidade a uma luta de um ser humano pela sobrevivência física e pela vivência das idéias.

Os outros personagens são representados de maneira discreta: Camilo Cienfuegos (Santiago Cabrera) é um dos comandantes de uma coluna, sendo por vezes mostrado como um mero brincalhão, os líderes Fidel (Demián Bichir) e Raúl Castro (Rodrigo Santoro), são evidenciados como os principais estrategistas da luta, ao lado de Che, mas seus papéis ficam mais relegados mais a interação com Guevara do que com as suas particularidades, ou seja são meros coadjuvantes históricos de luxo.

Enfim, Che – O Argentino é um filme sóbrio, sem um grande clímax. Mas é em especial uma obra documental sobre a vitória, sobre o ideal de liberdade e sobre o confronto contra os déspotas. E não é preciso ser comunista ou socialista para achar esta primeira parte um grande filme. Encerro este post com um trecho dos escritos de Guevara: Novo sangue jovem fertilizou os campos da América para tornar possível a liberdade! Perdeu-se uma nova batalha: devemos dar tempo para chorar os companheiros caídos enquanto são amolados os facões e sobre a experiência valiosa e infeliz dos mortos amados, tomar a firme decisão de não repetir erros, de vingar a morte de cada um com muitas batalhas vitoriosas e de alcançar a libertação definitiva.

Então, até a parte dois… e até breve.

Macc Avaliação: 9,5

Che! em Hollywood; em 1969.

Posted in Cinema de Revolução on 17/02/2009 by cinemacc

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Che! (Che – Causa Perdida, EUA, 1969) Direção: Richard Fleischer. Roteiro: Sy Bartlett; Michael Wilson. Fotografia: Charles F. Wheeler. Música: Lalo Schifrin. Elenco: Omar Sharif; Jack Palance; Robert Loggia; Woody Strode;  Barbara Luna; Frank Silvera.

 

Lançado nos Estados Unidos em 1969, Che – Causa Perdida, do diretor norte-americano Richard Fleischer teve exibição nos cinemas brasileiros apenas a partir de 15 de Setembro de 1975, e ainda assim com cortes.

Primeiramente, é notável que uma produção hollywoodiana, com elenco mega estelar, tenha o objetivo de retratar um símbolo da luta contra o imperialismo dos Estados Unidos. Principalmente se considerarmos ser um filme feito no cerne de acontecimentos importantes da Guerra Fria, como a luta no Vietnã e tão próximo da morte de Ernesto Che Guevara, em 1967.

Mas evidentemente esta é uma obra bastante controversa, em especial nas personagens centrais: Ernesto Che Guevara (Omar Sharif) e Fidel Castro (Jack Palance, caracterizado fisicamente de maneira perfeita).

A película começa justamente mostrando Guevara morto na Bolívia, durante a luta de guerrilha que vinha comandando para depor o governo boliviano. Personagem carismático e ao mesmo tempo austero, de médico à aventureiro, estudioso, teórico e escritor, o guerrilheiro de origem argentina foi um dos principais agentes do debate acerca da necessidade dos povos oprimidos lutarem contra qualquer prática imperialista, especialmente a norte-americana. O filme de Fleischer deixa claro esse propósito, mas alinha à força dos Estados Unidos, uma luta também contra a União Soviética.

A obra está estruturada de forma que somos conduzidos por depoimentos pseudo-documentais, de partícipes da luta pró e também contra os ideais de Guevara, sendo exposto a trajetória do líder da chegada à Cuba (em fins de 1956), passando pelos conflitos ideológicos entre Fidel e Che, até o retrato do momento da guerrilha na Bolívia e seu desenlace trágico.

Tecnicamente a qualidade dos tiroteios é bastante baixa do padrão hollywoodiano. As cenas são confusas e desajustadas, e mesmo a encenação de uma luta de guerrilha mereceria uma organização mais lógica ao espectador. Salva-se, dessas cenas de ação, uma representação de emboscada  feita em um rio boliviano, talvez, plasticamente, a melhor cena do filme. Mas compreende-se esse aspecto principalmente pela falta de apoio dos estúdios hollywoodianos.

O problema maior está no desenvolvimento do personagem Fidel Castro. Ele é retratado como uma espécie de líder sem carisma, fraco, e sem opinião, que segue as falas de Che cegamente, exceção à participação cubana de um golpe idealizado por Guevara contra a União Soviética, para ficar com os mísseis, no já conhecido momento da crise contra os Estados Unidos, em 1964.

Outro elemento dúbio é a simplificação que é destinada a participação dos camponeses na luta em Cuba. Apesar de apontarem, nos depoimentos, a importância de Che em se preocupar com a educação e com a saúde do povo (aspectos ainda hoje destacados em Cuba) o filme não mostra o seu poder de oratória e sua capacidade política, reduzindo-o a um guerrilheiro e a um assassino. Faltou, na minha opinião, tato ao roteirista para evidenciar o lado mais humano da personagem, ainda que ele seja o mártir e herói.

Destaca-se na produção os ótimos atores Frank Silvera e Woody Strode, que no filme acabam sendo meros coadjuvantes de Palance e Sharif, mas cuja presenças são elementares na condução da narração.

O filme vale principalmente por seu caráter histórico. Em 2009, comemoram-se os cinquenta anos da Revolução Cubana. Os ideais, os planos de luta, as vivencias e os relatos sobre os guerrilheiros, que hoje são políticos, são controversos como o filme de Fleischer expõe. Mas são lutas necessárias e dignas que vão além de uma causa perdida como sugere o título nacional. E isso a história prova diariamente ou ainda provará.

Para quem conhece um pouco da história da revolução uma interessante dica de leitura é a entrevista do sociólogo argentino Atílio Boron, em que ele fala sobre os cinquenta anos desse evento e das ligações com os dias de hoje: http://interpretacoesdeumsujeito.blogspot.com/2009/02/50-anos-da-revolucao-cubana.html

 

Então, boa reflexão e até breve!

Macc Avaliação: 7