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23º Ciclo de Cinema Histórico: Sessões “D” Segunda Guerra

Posted in Ciclo de Cinema Histórico, Cinema de Guerra, Drama on 15/05/2009 by cinemacc

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Primeiramente minhas desculpas àqueles que acompanham este blog pela ausência de posts. Mas, às vezes, a falta de inspiração, tempo e organização acabam chocando-se com resultados como este: o desaparecimento sem justificativas do mundo virtual.

Felizmente quase tudo é reparável em se tratando de mídia. E postamos aqui com certa defasagem a notícia do XXIII Ciclo de Cinema Histórico: Sessões “D” Segunda Guerra, que será realizado no Auditório do CCSH-Centro, entre os meses de Maio e Julho, com entrada franca e com certificados aos participantes de 75% do evento.

Tal como os Estados Unidos que adentrou na Segunda Guerra apenas após sofrer danos bélicos e logísticos (pelo menos essa é justificativa atribuída cinematograficamente e historicamente a entrada norte-americana no conflito), aqui no blog também divulgamos o evento apenas quando o Tio Sam levantou-se e caminhou para os campos de batalha…

Claro que os filmes selecionados são obras que contemplam muito mais do que apenas revelar a ação dos Estados Unidos. Buscando em um perspectiva histórica do conflito, desde o início da década de 1930 até o posterior ataque à Nagasaki e Hiroshima, as obras revelam uma guerra em cada um, seja pela  propaganda, seja pela ficção patriótica, seja pelo retrato histórico de táticas de combate, seja pelo filme pacifista, seja pelo que for, a seleção alcança o cerne da questão Segunda Guerra Mundial enquanto cinema histórico e enquanto entretenimento.

O ciclo tem como objetivo pretende, a partir de uma perspectiva histórica dos eventos da Segunda Grande Guerra Mundial, procurando cumprir com uma sequência cinematográfica de obras de propaganda, documentários e ficção que contemplem, os principais momentos dessa guerra, diversificando as propostas estéticas e temáticas dos produtores e compondo um cenário adequado das relações entre cinema e guerra.

“A maior glória de uma guerra é sobreviver a ela”, essas palavras do diretor e ex-combatente da Segunda Guerra Mundial Samuel Fuller são um retrato do quanto a história de uma guerra é suja, repleta de dor, perda e desumanidade que em muitos casos ficam sob o véu frio das estatísticas ou como uma visão meramente político-econômico em que o homem é uma peça de um jogo em que conhecer o vencedor geralmente não possui glória alguma.

MAIO
11 de Maio de 2009, 19h15min, segunda-feira
Tag der Freiheit – Unsere Wehrmacht (O dia da liberdade)
Direção: Leni Riefenstahl
Alemanha, 1935, P&B, 15 min.
Com: Adolf Hitler, Rudolf Hess, Hermann Göring, Werner von Blomberg, Werner von Fritsch.
O filme: “Registro em curta-metragem de propaganda nazista, com cenas de revista das tropas nazistas.”
Macc Avaliação: 7,5

11 de Maio de 2009, 19h30min, segunda-feira
Prelude to War (Prelúdio de uma guerra)
Direção: Frank Capra; Anatole Litvak
Estados Unidos, 1943, P&B, 53 min
Com: Walter Huston (narrador), Anthony Veiller (narrador), Benito Mussolini, Adolf Hitler, Hirohito, Max Schmeling.
O filme: “Documentário de propaganda anti-fascista, mas principalmente alinhada a ideologia liberal norte-americana, que relata o avanço de Itália, Japão e Alemanha antes da eclosão ‘oficial’ do conflito.”
Premiações: Academy Awards®: Melhor documentário.
Comentários: Juliano Luis Palm
Macc Avaliação: 8,5

12 de Maio de 2009, 19h, terça-feira
Battle of Britain (A batalha britânica)
Direção: Guy Hamilton
Inglaterra, 1969, Color, 133 min.
Com: Michael Caine, Trevor Howard, Curd Jürgens, Ian McShane, Laurence Olivier, Christopher Plummer, Robert Shaw.
O filme: “Quando a Luftwaffe alemã bombardeia a Inglaterra tem início uma das mais importantes batalhas aéreas da Segunda Guerra, em que Real Força Aérea, em inferioridade numérica, desafiou a lógica, enfrentando o poder nazista.”
Premiações: BAFTA: Indicado Trilha para filme.
Comentários: Rondon de Castro
Macc Avaliação: 8

13 de Maio de 2009, 19h, quarta-feira
You, John Jones! (Você, John Jones)
Direção: Mervyn LeRoy
Estados Unidos, 1943, P&B, 10min
Com: James Cagney, Ann Sothern, Margaret O’Brien.
O filme: “Curta-Metragem de propaganda aliada. Trabalhador cuida da segurança de uma cidade norte-americana, quando vê a guerra chegando à sua terra, pondo em risco sua família.”
Macc Avaliação: 8

13 de Maio de 2009, 19h15min, quarta-feira
Cross of Iron (Cruz de Ferro)
Direção: Sam Peckinpah
Inglaterra/Alemanha, 1977, Color, 132 min.
Com: James Coburn, Maximilian Schell, James Mason, David Warner, Klaus Löwitsch.
O filme: “A obsessão de um comandante prussiano que busca a Cruz de Ferro para manter a honra de sua família e a luta dos soldados alemães pela sobrevivência no front soviético são caminhos que apenas o cinema de Peckinpah poderia percorrer de forma consciente.”
Comentários: José Iran Ribeiro
Macc Avaliação: 9

14 de Maio de 2009, 19h, quinta-feira
Idi i Smotri (Vá e veja)
Direção: Elem Klimov
União Soviética, 1977, Color/P&B, 142 min.
Com: Aleksei Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Lauciavicius, Vladas Bagdonas.
O filme: “Obra sensível e selvagem que narra a trajetória Florya, um jovem separado de seus comandantes durante a Segunda Guerra Mundial, no front soviético. Filme impressionante; uma poesia sobre dor e perda”
Comentários: Paulo Aukar
Macc Avaliação: 10

15 de Maio, 19h, sexta-feira
From Here to Eternity (A um passo da eternidade)
Direção: Fred Zinnemann
Estados Unidos, 1953, P&B, 118 min.
Com: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra.
O filme: “Talvez o beijo mais famoso da história do cinema, atuações brilhantes e roteiro interessante que revela o que se passava em Pearl Harbor antes do ataque japonês. O ato ficou conhecido pela infâmia e o filme pela inspiração dos realizadores.”
Premiações: Academy Awards®: Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Edição, Fotografia em Preto e Branco Som. Indicado: Ator (Montgomery Clift), Ator (Burt Lancaster), Atriz (Deborah Kerr), Trilha sonora, Figurino em Preto e Branco. BAFTA: Indicado: Filme Estrangeiro. Cannes Festival: Prêmio Especial (Fred Zinnemann). Indicado ao Grande Prêmio do Festival. Golden Globes®: Melhor Diretor, Ator Coadjuvante (Frank Sinatra).
Comentários: Jair Alan
Macc Avaliação: 9

JUNHO
04 de Junho de 2009, 18h50min, quinta-feira
Der Fuhere’s Face (Vida de nazista)
Direção: Jack Kinney
Estados Unidos, 1942; Color; 8 min.
Com: Clarence Nash (Voz).
O filme: “Curta-metragem e propaganda de animação, que revela a exploração do trabalhador e do cidadão nazista a partir do protagonista Pato Donald.”
Premiações: Academy Awards®: Melhor Curta Metragem de Animação.
Macc Avaliação: 10

04 de Junho de 2009, 19h, quinta-feira
Enemy at the Gates (Círculo de fogo)
Direção: Jean-Jacques Annaud
Estados Unidos/Alemanha/Inglaterra/Irlanda, 2001, Color, 131 min.
Com: Jude Law, Ed Harris, Rachel Weisz, Joseph Fiennes, Bob Hoskins, Ron Perlman.
O filme: “A batalha de Stalingrado, pelos olhos ocidentais. Em 1942, os nazistas invadem a União Soviética de maneira brutal. Até chegar a Stalingrado, que resiste. Enquanto a cidade arde em chamas, dois soldados inimigos começam uma guerra particular por coragem, honra e pela Nação.”
Comentários: Sérgio Prieb
Macc Avaliação: 8

05 de Junho de 2009, 18h, sexta-feira
D-day Revisited (O dia D revisitado)
Direção: Darryl F. Zanuck
Estados Unidos, 1968, Color/P&B, 51min.
Com: Darryl F. Zanuck.
O filme: “Documentário dirigido pelo famoso produtor hollywoodiano Darryl F. Zanuck, que já havia produzido o importante ‘O mais longo dos dias’ (exibido no Segundo Ciclo de Cinema). Imagens raras de arquivo e muito patriotismo em questão.”
Macc Avaliação: 8

05 de Junho de 2009, 19h, sexta-feira
D-day the Sixth of June (O dia D)
Direção: Henry Koster
Estados Unidos, 1956, Color, 106 min.
Com: Robert Taylor, Richard Todd, Dana Wynter, Edmond O’Brien, John Williams.
O filme: “Dois oficiais estão na linha de frente em 6 de junho de 1944, na invasão da Normandia. E como ambos estão apaixonados pela mesma mulher, o dia da luta também determinará qual dos dois voltará para os braços da amada.”
Comentários: Neandro Vieira Thesing
Macc Avaliação: 8,5

08 de Junho de 2009, 19h, segunda-feira
Five Graves to Cairo (Cinco covas no Egito)
Direção: Billy Wilder
Estados Unidos, 1944, P&B, 96 min.
Com: Franchot Tone, Anne Baxter, Akim Tamiroff, Erich von Stroheim, Peter van Eyck.
O filme: “Junho, 1942. Os ingleses são derrotados pelo general Rommel no Egito, deixando para trás John Bramble, um militar que se refugia em um hotel, que se torna um centro de operações alemãs. A Inglaterra depende de John que, assumindo uma identidade falsa, passa a tentar descobrir os planos nazistas. Ótimo filme de ficção produzido no calor da guerra.”
Premiações: Academy Awards®: Indicado: Edição, Direção de Arte em Preto e Branco, Fotografia em Preto e Branco.
Comentários: André Fertig
Macc Avaliação: 8,5

09 de Junho de 2009, 18h30min, terça-feira
The Big Red One (Agonia e glória)
Direção: Samuel Fuller
Estados Unidos, 1980, P&B/Color, 160 min.
Com: Lee Marvin, Mark Hamill, Robert Carradine, Bobby Di Cicco, Kelly Ward, Stéphane Audran, Siegfried Rauch.
O filme: “Filme emblemático. Um sargento conduz seu pelotão lutando desde o Norte da África até a Normandia, cruzando toda a Europa. A obra funciona como o diário de combate do esquadrão, mostrando como se lutou, como se suou e sangrou na guerra e, talvez, como foi possível sobreviver a ela.”
Premiações: Cannes Festival: Indicado Palma de Ouro.
Comentários: Tales Henrique Albarello
Macc Avaliação: 10

10 de Junho de 2009, 18h30min, quarta-feira
The Bridge on the River Kwai (A ponte do rio Kwai)
Direção: David Lean
Inglaterra/Estados Unidos, 1957, Color, 161 min.
Com: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne.
O filme: “Front asiático. O Japão reina sobre um grande território. A obra focaliza as tensões surgidas em um campo de prisioneiros britânicos que são obrigados a construir um ponte sobre o rio Kwai. A trilha sonora de Maurice Jarre é excepcional e inesquecível, assim como o conjunto da obra.”
Premiações: Academy Awards®: Melhor Filme, Diretor, Ator (Alec Guinness), Fotografia, Edição, Trilha sonora, Roteiro. Indicado: Ator Coadjuvante (Sessue Hayakawa). BAFTA: Melhor Filme, Filme Britânico, Ator (Alec Guinness), Roteiro Britânico. Golden Globes®: Melhor Filme – Drama, Diretor, Ator – Drama (Alec Guinness). Indicado: Ator Coadjuvante (Sessue Hayakawa). Grammy: Indicado Trilha Sonora.
Comentários: Camila dos Santos
Macc Avaliação: 9

JULHO
1º de Julho de 2009, 18h, quarta-feira
Broken Silence: Algunos que Vivieron (Rompendo o silêncio: Alguns que viveram)
Direção: Luis Puenzo
Argentina/Estados Unidos, 2002, P&B/Color, 55 min.
Com: Jack Fuchs, Liza Zajak-Novera, Robert Lamberg, Benjamin Mehl, Alejandro Horvath.
O filme: “Este filme faz parte de uma série de cinco documentários sobre o Holocausto. Produzido por Steven Spielberg o filme de Luis Puenzo é um emocionante retrato dos horrores da Segunda Grande Guerra sob o ponto de vista de quem o vivenciou de perto e sobreviveu para alertar o mundo.”
Comentários: Fabricio Flores Fernandes
Macc Avaliação: 8,5

1º de Julho de 2009, 19h30min, quarta-feira
Rádio Auriverde (Rádio auriverde)
Direção: Sylvio Back
Brasil, 1990, P&B, 70 min.
Com: Imagens de arquivo e transmissões de rádio.
O filme: “Documentário que, a partir de imagens, fotos e sons, procura revelar a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, valendo-se do deboche e da crítica em relação a real contribuição do Brasil e da aproximação com os Estados Unidos.”
Comentários: Oscar de Oliveira Siqueira
Macc Avaliação: 8

02 de Julho de 2009, 19h, quinta-feira
Paisà (Paisá)
Direção: Roberto Rossellini
Itália, 1946, P&B, 134 min.
Com: Carmela Sazio, Robert Van Loon, Dots Johnson, Alfonsino Pasca, Maria Michi, Harriet Medin.
O filme: “Obra do neo-realismo italiano que cobre o período da invasão aliada de 1943 até o inverno de 1944, na Itália. O humanismo do filme é revelado a partir de dramas pessoais, de acertos e enganos estratégicos e da aproximação entre o natural e ficcional em Rossellini.”
Premiações: Academy Awards®: Indicado Roteiro. BAFTA: Indicado Filme Estrangeiro.
Comentários: Glaucia Vieira Ramos Konrad
Macc Avaliação: 9

03 de Julho de 2009, 19h, sexta-feira
Gembaku no ko (Filhos de Hiroshima)
Direção: Kaneto Shindo
Japão, 1952, P&B, 97min
Com: Nobuko Otowa, Osamu Takizawa, Niwa Saito.
O filme: “Obra-prima do cinema ‘poético’ japonês que revela a vida de pessoas simples depois do horror da Segunda Guerra em Hiroshima. Um filme produzindo ainda sob o impacto da bomba que ressoa até hoje na memória”.
Premiações: BAFTA: Melhor Filme Estrangeiro; Cannes Festival: Indicado ao Grande Prêmio do Festival.
Comentários: Rodrigo Lopes
Macc Avaliação: 9

23 Ciclo

Lilies of the Field: a fé remove as sombras

Posted in Ciclo de Cinema Histórico, Comédia on 22/04/2009 by cinemacc

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Lilies of the field (Uma voz nas sombras, EUA, 94 min., 1963). Direção: Ralph Nelson. Roteiro: James Poe. Fotografia: Ernest Haller. Música: Jerry Goldsmith. Elenco: Sidney Poitier; Lilia Skala; Lisa Mann; Isa Crino; Francesca Jarvis; Pamela Branch; Stanley Adams.

Premiações: Academy Awards®: Melhor Ator (Sidney Poitier); Indicado: Filme; Roteiro Adaptado; Atriz Coadjuvante (Lilia Skala); Fotografia P&B. BAFTA: Indicado Ator Estrangeiro (Sidney Poitier); Prêmio UN. Berlin Festival: Melhor Interfilm; Prêmio OCIC; Urso de Prata de Melhor Ator (Sidney Poitier); Menção Honrosa de Prêmio Jovem Realizador. Indicado Urso de Ouro. Golden Globes®: Melhor Ator – Drama (Sidney Poitier); Filme – Categoria Especial; Indicado: Filme – Drama; Atriz Coadjuvante (Lilia Skala).

 
Antes de me dedicar a ‘árdua’ tarefa de colecionar e ver todas as obras indicadas ao prêmio Oscar® de melhor filme, não conhecia um quarto de bons filmes norte-americanos. Eis que então, dentre estes bons filmes que concorreram no Academy Awards®, surge um obra singular que enfoca a devoção de maneira bastante espirituosa e agradável, Lilies of the Field (literalmente, “lírios do campo”), título retirado de uma passagem do Novo Testamento, do sermão da Montanha no livro de Mateus, e que foi traduzido no Brasil com o sugestivo nome Uma voz nas sombras.

Pela sinopse pude tomar contato que seria, no mínimo, um filme interessante: Um homem negro, Homer Smith (Poitier) é um operário desempregado, que trabalha no ramo de construções. Ele para seu carro em uma propriedade rural, para arrumar o carro que está com problemas. Nesse lugar moram freiras católicas do leste europeu. Maria (Skala), a madre superiora, acredita que ele foi mandado por Deus para ajudá-las a construir uma capela naquele local. Apesar disto não estar em seus planos, Homer se propõe a fazer pequenas tarefas, o que gradativamente começa a tomar proporções maiores, na medida em que ele passa a ser envolvido pelo discurso e pelo contato com as freiras. Assim, ainda que bastante religioso e relacionado à crença, pareceu-me também bastante humano e simples.

Mas Uma voz nas sombras é muito mais do que isso. Trata-se de uma obra envolvente, bem construída, com ótimo senso de humor, fé, e claro com uma mensagem redentora, positiva e cristã. Quero deixar claro que não sou um religioso praticante, até, posso dizer, critico muito a estrutura política dessas instituições. Mas o filme me convenceu que há humanidade na (divina) providência, basta crer.

Produzido nos anos 1960, a obra é baseada no romance homônimo de William E. Barrett (que escreveu o livro em 1962). A obra toca em assuntos próprios do que a religiosidade gosta de abordar: fé, crença, amizade, coletividade, conflito – com o resultado positivo, trabalho, relações étnicas e raciais (bem propício para a época da produção) e confiança.

Destaca-se a atuação brilhante de Sidney Poitier, no auge de suas interpretações na década de 1960, para as irmãs que expressavam um misto de sentido de bondade, com autoritarismo calcado na fé e na canção composta por Jester Hairston (que também dublou a voz de Sidney Poitier quando seu personagem cantava em cena), “Amen”, que ressoa na mente do espectador após a sessão.

O próprio Ralph Nelson dirigiu seu último filme em 1979 – Christmas Lilies of the Field -, refilmando e adaptando para a televisão, Uma voz nas sombras – que foi seu maior sucesso, sendo que nesse telefilme ele relaciona a trama a proposta natalina.

Enfim, vale descobrir esta obra, que ainda está escondida sob as sombras de filmes mais populares. Os motivos que tornam importante conferir este filme já deixamos claro aqui, mas, principalmente, devemos ver pela necessidade de crermos em algo, como, por exemplo, boas histórias (com orçamentos modestos) contatadas no cinema. E nisso eu creio, sem sombra de dúvidas.

 
Quando e Onde ver:
Dia 22 de Abril de 2009, 19 h, com comentários do professor, cronista, escritor e historiador Vitor Biasoli.
22º Ciclos de Cinema Histórico: Crenças, Fé e Obsessões Religiosas.
Auditório do CCSH – Centro; Rua Floriano Peixoto, 1184
Santa Maria, RS.
Entrada Franca

Macc Avaliação: 9,5

22º Ciclo de Cinema Histórico: Crenças, Fé e Obsessões Religiosas

Posted in Ciclo de Cinema Histórico on 22/04/2009 by cinemacc

22-ciclo

Começa hoje, no Auditório do CCSH-Centro, o 22º Ciclo de Cinema Histórico: Crenças, Fé e Obsessões Religiosas. As temáticas sobre religião e elementos que entrecruzam o tema têm tudo para provocar no público espectador sentimentos que podem transitar de uma confirmação da função social-política da religião a uma recuperação ou perda da crença e da fé.

 

Vitor Biasoli, colaborador dos ciclos desde a primeira edição produziu um texto bastante elucidativo do objetivo e do tema: ‘As crenças no sobrenatural, no sagrado e no transcedental acompanham a trajetória da humanidade desde a Antiguidade. Vivenciadas intimamente pela maioria dos homens, essas crenças foram e são objetos de questionamentos e sistemas filosóficos. Resultaram em códigos sociais, organizando-se em igrejas e com múltiplas expressões ao longo da história. O cinema não deixou de tematizá-las e o objetivo deste ciclo é analizar alguns desses títulos – que vão além da alma, além de um questionamento interior. Ao contrário do que se pensa, a modernidade – caracterizada pela crescente racionalização e questionamento de todas as crenças tradicionais – não sufocou o mundo religioso.’

Então, independentemente de qual for seu credo, os sete (que poderiam ser “sete pecados”?) filmes selecionados possuem um alto nível de qualidade artística, notabilizados por posturas de abordagem distintas em argumento e proposta religiosa.

Lembramos que a entrada é franca. Então é só aparecer, participar e tentar manter ou redescobrir a sua fé!!

22 de Abril de 2009, 19h
Lilies of the field (Uma voz nas sombras)
Direção: Ralph Nelson.
Estados Unidos, 1963, 94 min.
Com: Sidney Poitier; Lilia Skala; Lisa Mann; Isa Crino; Francesca Jarvis; Pamela Branch; Stanley Adams.
Comentários: Vitor Biasoli.
Sinopse: Homer Smith (Poitier) é um operário desempregado, que trabalha em construções. Ele para seu carro em uma propriedade rural, para arrumar o carro. Nesse lugar moram freiras católicas do leste europeu. Maria (Skala), a madre superiora, acredita que ele foi mandado por Deus para ajudá-las a construir uma igreja naquela região. Apesar disto não estar em seus planos, Homer se propõe a fazer pequenas tarefas, mas gradativamente começa a ser envolvido pelas religiosas.
Premiações: Academy Awards®: Melhor Ator (Sidney Poitier); Indicado: Filme; Roteiro Adaptado; Atriz Coadjuvante (Lilia Skala); Fotografia P&B. BAFTA: Indicado Ator Estrangeiro (Sidney Poitier); Prêmio UN. Berlin Festival: Melhor Interfilm; Prêmio OCIC; Urso de Prata de Melhor Ator (Sidney Poitier); Menção Honrosa de Prêmio Jovem Realizador. Indicado Urso de Ouro. Golden Globes®: Melhor Ator – Drama (Sidney Poitier); Filme – Categoria Especial; Indicado: Filme – Drama; Atriz Coadjuvante (Lilia Skala).
Macc Avaliação: 9,5

23 de Abril de 2009, 19h
Barravento (Barravento)
Direção: Glauber Rocha.
Brasil, 1962, 78 min.
Com: Antonio Pitanga; Luiza Maranhão; Lucy de Carvalho; Aldo Teixeira; Lidio Silva.
Comentários: Mauricio Lima.
Sinopse: Negros que, após a abolição da escravatura, continuam escravos, pescadores dominados pelo misticismo religioso, uma força externa vindo ao encontro deles e em oposição ao “estado de alienação”. Por fim, a revolução contra o patrão e contra Iemanjá, ambos responsáveis por sua miséria.
Macc Avaliação: 9

24 de Abril de 2009, 19h
O Pagador de Promessas (O pagador de promessas)
Direção: Anselmo Duarte.
Brasil, 1962, 98 min.
Com: Leonardo Villar; Glória Menezes; Dionísio Azevedo; Geraldo Del Rey; Roberto Ferreira; Norma Bengell.
Comentários: Rafael Lameira.
Sinopse: Ao tentar cumprir uma promessa feita em um terreiro de candomblé, um humilde homem, Zé do Burro (Villar), após carregar uma pesada cruz por um longo percurso, enfrenta a intransigência da Igreja.
Premiações: Academy Awards®: Indicado Filme em Língua Estrangeira. Cannes Festival: Palma de Ouro de Melhor Filme.
Macc Avaliação: 9

27 de Abril de 2009, 19h
In the name of the Father (Em nome do pai)
Direção: Jim Sheridan.
Irlanda/Inglaterra, 1993, 133 min.
Com: Daniel Day-Lewis; Emma Thompson; Pete Postlethwaite; Mark Sheppard; Anthony Brophy; Frankie McCafferty.
Comentários: Nielle Villanova.
Sinopse: Baseado em fatos. Gerry era um pequeno delinqüente de Belfast, durante os anos 70. Depois de ir para a Inglaterra, é injustamente acusado como um dos quatro terroristas de Guildford, pegando prisão perpétua e descobrindo, aos poucos, suas forças mais profundas para lutar contra tal injustiça.
Premiações: Academy Awards®: Indicado: Filme; Diretor; Ator (Daniel Day-Lewis); Ator Coadjuvante (Pete Postlethwaite); Atriz Coadjuvante (Emma Thompson); Roteiro – Adaptado; Edição. BAFTA: Indicado Ator (Daniel Day-Lewis); Roteiro – Adaptado. Berlin Festival: Urso de Ouro de Melhor Filme. Golden Globes®: Filme – Drama; Ator – Drama (Daniel Day-Lewis); Atriz Coadjuvante (Emma Thompson); Canção (“(You Made Me the) Thief of Your Heart”, de Bono, Gavin Friday, Maurice Seezer).
Macc Avaliação: 9,5

28 de Abril de 2009, 19h
Nattvardsgästerna (Luz de inverno)
Direção: Ingmar Bergman.
Suécia, 1962, 81 min.
Com: Ingrid Thulin; Gunnar Björnstrand; Gunnel Lindblom; Max von Sydow; Allan Edwall.
Comentários: André Jobim.
Sinopse: Após ler nos jornais que a China possuí a bomba atômica e pretende usá-la, um pescador vai à igreja, buscando palavras de conforto e consolo do pastor. Porém, este não consegue ajudá-lo porque está passando por uma crise de fé, temendo também o apocalipse nuclear.
Macc Avaliação: 9

29 de Abril de 2009, 19h
Kundun (Kundun)
Direção: Martin Scorsese.
Estados Unidos/Tibete, 1997, 137 min.
Com: Tenzin Thuthob Tsarong; Gyurme Tethong; Tulku Jamyang Kunga Tenzin; Tenzin Yeshi Paichang; Tencho Gyalpo.
Comentários: Fernanda Gabriela dos Santos.
Sinopse: Em 1933, morre o décimo-terceiro Dalai Lama. Quatro anos depois, em uma remota área do Tibet, é encontrado um menino de dois anos, que é identificado como a reencarnação de Dalai Lama, o “Buda da Compaixão”. Dois anos mais tarde, o garoto é levado para Lhasa, onde é educado como um monge e preparado para se tornar um chefe de estado. Quando tem 14 anos passa a enfrentar problemas com a China, que pretende tomar posse do Tibet.
Premiações: Academy Awards®: Indicado: Fotografia; Direção de Arte; Figurino; Trilha Sonora. Golden Globes®: Trilha Sonora.
Macc Avaliação: 9

30 de Abril de 2009, 19h
Amen. (Amém)
Direção: Konstantinos Costa-Gavras.
França/Romênia/Alemanha, 2002, Color, 132 min.
Com: Ulrich Tukur; Mathieu Kassovitz; Ulrich Mühe; Michel Duchaussoy; Friedrich von Thun.
Comentários: Fritz Nunes.
Sinopse: Segunda Guerra Mundial. Um oficial da SS, desenvolve um produto para tornar mais eficiente a limpeza de tanques. Seu produto, porém, é utilizado para matar os judeus nos campos de concentração. Horrorizado, ele procura o jovem padre Ricardo Fontana que, sendo de família influente, poderia solicitar a interferência do Papa Pio XII para impedir o genocídio dos judeus. Nessa trama se desenrola toda a saga desses dois jovens, um movido pela culpa outro pela consciência e toda a intensa luta para salvar milhões de judeus.
Premiações: Berlin Festival: Indicado Urso de Ouro. Cannes Festival: Melhor Roteiro. Indicado: Filme; Diretor; Ator (Mathieu Kassovitz); Fotografia; Música; Som.
Macc Avaliação: 9

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Volver: um retorno

Posted in Ciclo de Cinema Histórico, Comédia, Drama on 09/04/2009 by cinemacc

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Volver (Volver, ESP, 121 min., 2006). Direção: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Música: Alberto Iglesias. Elenco: Penélope Cruz; Carmen Maura; Lola Dueñas; Blanca Portillo; Yohana Cobo; Antonio de la Torre; Chus Lampreave.

 

Premiações: Academy Awards®: Indicado Atriz (Penélope Cruz). BAFTA: Indicado Atriz (Penélope Cruz); Filme Estrangeiro. Cannes Festival: Melhor Elenco Feminino; Roteiro. Indicado Palma de Ouro. César Awards: Indicado Filme Estrangeiro. Golden Globes®: Indicado: Filme Estrangeiro; Atriz (Penélope Cruz).

 

Ok, quem já leu algum dos posts aqui escritos já pode perceber que não gosto da grande maioria dos filmes do sr. Pedro Almodóvar. Mas não vou cair na ranzinzisse de apenas destruir uma obra que, sim, tem méritos. E por isso escreverei um texto valorizando um de seus filmes, que inclusive, na minha avaliação, não é o melhor, diria até longe disso.

É importante dizer que considero Fale com Ela (2002) a obra-prima, o filme nota 10 desse diretor. O roteiro envolvente, a história que trata de solidões, e as possibilidades criativo-estéticas com referências ao cinema mudo, a sua própria obra e ao universo espanhol é algo admirável e difícil de se encontrar na cinematografia mundial.

Mas vou falar aqui de Volver, que de partida tem o mesmo nome de um tango composto e interpretado por Carlos Gardel, presente na trilha sonora. Em um livro de entrevistas lançado no Brasil em 2008, Conversas com Almodóvar, ele fala que esse filme é uma espécie de “ajuste de contas” necessário com sua infância, uma espécie de produção necessária para ele procurar novos voos. O diretor busca um retorno ao passado, parecendo inspirar-se em suas próprias memórias. Almodóvar, nasceu em La Mancha, que também é a cidade natal das protagonistas.  Assim, através de suas personagens, ele parece exorcizar seus próprios fantasmas da infância, dos parentes já idosos e da morte dos pais.

A história une o cômico, o dramático e o realismo fantástico. Raimunda (Cruz), a protagonista, trabalha como faxineira no aeroporto de Madri para sustentar o marido desempregado e a filha adolescente. Sole (Dueñas), sua irmã mais velha, trabalha em casa, onde instalou um salão de beleza. Ambas visitam rotineiramente o túmulo da mãe Irene (Maura), que morreu em um incêndio causado pelo calor e pelos fortes ventos da região. Certo dia, Irene reaparece. Inicialmente, só Sole a vê, mas na verdade é com Raimunda que ela tem assuntos pendentes a acertar.

Almodóvar aborda a relação de cumplicidade, separação e vínculo entre mulheres de uma mesma família, três gerações que, de alguma forma, tiveram problemas com os homens. Cabe às mulheres o papel de cuidar e proteger a família, inclusive da violência masculina. Em Volver, o diretor constrói um subtexto elaborado a partir do tema do abuso sexual, já abordado em Má Educação (2004), mas agora pelo viés feminino. O foco sob os sentimentos de medo, culpa e vergonha servem de desbobramentos para o roteiro que situa esse tema delicado construido a partir de uma linha tênue entre o melodrama e a comédia, predominando o tom leve e descontraído, mas que ganha intensidade no desfecho.

As atrizes, com destacadas atuações, desempenham personagens típicas dos filmes de Almodóvar, misturando extravagância, força e sensibilidade. Os planos de filmagem são bem próximos aos personagens, geralmente em lugares fechados, com destaque para certos closes que valorizam a beleza de Penélope Cruz.

Uma característica do cinema de Almodóvar é realizar homenagens a história do cinema, rememorando e retornando as suas paixões de infância, adolescência e madurez. Neste filme ele cita a obra Belíssima (1951), de Luchino Visconti que também trata a relação entre mãe e filha, o que constitui um belo elo temático entre os filmes.

Sim, Volver é uma obra com teor novelesco e adocicado. Sim, é um filme que não agradará a todos. Sim, é uma obra muito mais destinada a fãs do diretor. Sim, o filme tem qualidades, tem um bom ritmo, tem o sempre destacado uso das cores e tem uma boa história. Sim vale a pena ser visto porque Almodóvar é mestre em tocar em sentimentos e afetos que envolvem experiências profundas de cuidado e proteção. E sim, este também é um post de ajuste de contas com o cinema deste diretor espanhol, mas não me peçam para falar mais… por hora.

Quando e Onde ver:
Dia 9 de Abril, 19 h, com comentários do professor Guilherme Rodrigues Passamani.
21º Ciclos de Cinema Histórico: Mulheres à Beira de uma Sessão de Cinema.
Auditório do CCSH – Centro; Rua Floriano Peixoto, 1184
Santa Maria, RS.
Entrada Franca

Macc Avaliação: 8

The Hours: caminhos de um dia que não acaba

Posted in Ciclo de Cinema Histórico, Drama on 08/04/2009 by cinemacc

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The Hours (As Horas, EUA/ING, 114 min., 2002). Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare. Fotografia: Seamus McGarvey. Música: Philip Glass. Elenco: Nicole Kidman; Julianne Moore; Meryl Streep; Stephen Dillane; Miranda Richardson; John C. Reilly; Toni Collette; Ed Harris.

 

Premiações: Academy Awards®: Melhor Atriz (Nicole Kidman). Indicado: Filme; Diretor; Figurino; Edição; Ator Coadjuvante (Ed Harris); Atriz Coadjuvante (Julianne Moore); Trilha Sonora; Roteiro Adaptado. BAFTA: Melhor Atriz (Nicole Kidman); Trilha Sonora. Indicado Filme; Filme Britânico; Edição; Maquiagem; Roteiro Adaptado; Ator Coadjuvante (Ed Harris); Atriz Coadjuvante (Julianne Moore); Atriz Coadjuvante (Meryl Streep); Diretor. Berlin Festival: Prêmio do Júri dos leitores de ‘Berliner Morgenpost’ (Stephen Daldry); Urso de Prata (Nicole Kidman; Meryl Streep; Julianne Moore). Indicado: Urso de Ouro. César Awards: Indicado Filme Estrangeiro. Golden Globes®: Melhor Filme – Drama; Atriz (Nicole Kidman). Indicado: Diretor; Roteiro; Trilha Sonora; Ator Coadjuvante (Ed Harris); Atriz Coadjuvante (Meryl Streep). Grammy: Indicado Trilha Sonora.

 

“A dor de cabeça está sempre por perto, esperando, e seus períodos de liberdade, por mais longos que sejam, parecem sempre provisórios. Às vezes a dor de cabeça toma posse dela apenas parcialmente, por uma tarde, um dia ou dois, depois se retira. Às vezes fica e cresce, até que ela própria se esvai. Nessas ocasiões, a dor de cabeça sai do crânio e muda-se para o mundo.” (p.62) Este excerto da obra As horas, do escritor californiano Michael Cunnigham – que venceu o prêmio Pulitzer por este romance -, resume a idéia que eu tive quando li o livro há algum tempo atrás: a inquietude, seu deslocamento do mundo e a infelicidade das protagonistas retratadas.

O filme que é baseado no referido livro é marcado por uma sensibilidade e por uma delicadeza narrativa, que a montagem consegue imprimir e que a mão segura de Stephen Daldry consegue transmitir. A trilha sonora minimalista de Philip Glass, colabora para dar a dimensão íntima e angustiante das protagonistas, e o elenco destaca-se pela doação e pelo engajamento com o propósito da narrativa, destacando-se Nicole Kidman (que esconde sua beleza em um maquiagem que a deixou – muito – estranha, mas não prejudicou sua atuação), Julianne Moore e Ed Harris.

A história revela, de maneira entrecruzada pela montagem, a vida de três mulheres que estão interligadas por um livro, Mrs. Dalloway, escrito pela escritora inglesa Virgina Woolf. Ela, Mrs. Woolf, (Kidman), na década de 1920, está começando a escrever seu livro, Mrs. Dalloway, sob os cuidados de seus médicos e familiares. Em 1951, Laura Brown (Moore) está preparando algo para o aniversário de seu marido. Entretanto, encontra-se ocupada pois está lendo o livro escrito por Virginia, o mesmo Mrs. Dalloway. Em 2001, Clarissa Vaughn (Streep) está preparando uma festa para seu melhor amigo (Harris), um famoso autor que está morrendo de AIDS. A trama é tomada em apenas um dia, e as histórias percorrem uma vivência e uma leitura intrigantemente distinta.

O romance Mrs. Dalloway, lançado em 1925 e que serviu de inspiração para Cunningham, mostra em um único dia a recepção que Clarissa Dalloway prepara em sua casa, na Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial. Ao longo do dia, o romance acompanha as atividades e, principalmente, os pensamentos de algumas pessoas cujas vidas de algum modo se relacionam com Clarissa e sua festa. A obra foi uma das primeiras a fazer uso do  fluxo de consciência, que mais tarde também fora usado por Clarice Lispector na Literatura Brasileira.
A marca do romance e do filme é a expressão da extrema infelicidade e inquietude que passam as protagonistas, ainda que, em um primeiro momento, não transpareçam isso. Virginia está a beira de um ataque de loucura, pois sofre muito a solidão vinda do confinamento na cidade onde vive, e só se liberta enquanto escreve. Laura que parece ter uma vida perfeita, sofre de uma angústia que nos agonia, e somente fica feliz enquanto lê Mrs. Dalloway. Já Clarissa vê a todo tempo o quanto banal é sua vida, só tendo um pouco de felicidade enquanto deixa de viver sua vida para viver a de Richard, o qual a apelidou de “Mrs. Dalloway”.

O roteiro de David Hare foca a angústia da alma feminina com uma sensibilidade impressionante, exatamente no mesmo molde em que Virginia compunha seus livros de temática introspectiva. A expressão da vivência de mulheres (uma real e outras duas ficcionais) por momentos distintos da história, através de uma simultaneidade de situações, capta e arrebata o expectador que se sente guiado pelos dramas particulares, pelos desejos reprimidos e pelo sufocamento de um dia, que se repetiu e que poderá se repetir sem cessar.

Quando e Onde ver:
Dia 8 de Abril, 19 h, com comentários de Lenine Ribas Maia.
21º Ciclos de Cinema Histórico: Mulheres à Beira de uma Sessão de Cinema.
Auditório do CCSH – Centro; Rua Floriano Peixoto, 1184
Santa Maria, RS.
Entrada Franca

Macc Avaliação: 9,5

Dona Flor e seus Dois Maridos: menage à trois à baianês

Posted in Ciclo de Cinema Histórico, Comédia, Romance on 07/04/2009 by cinemacc

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Dona Flor e seus Dois Maridos (Dona Flor e seus Dois Maridos, BRA, 110 min., 1976). Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Bruno Barreto; Eduardo Coutinho; Leopoldo Serran. Fotografia: Murilo Salles. Música: Francis Hime; Chico Buarque de Hollanda. Elenco: Sonia Braga; José Wilker; Mauro Mendonça; Dinorah Brillanti; Nelson Xavier.

 

Premiações: BAFTA: Indicado Revelação (Sonia Braga). Golden Globes®: Indicado Filme Estrangeiro. Gramado Festival: Melhor Direção; Trilha Sonora; Prêmio do Júri Designer de Produção. Indicado Filme.

 

Sou um apreciador da literatura de Jorge Amado. Seu livro Capitães de Areia está entre os meus favoritos dos romances nacionais. A novela A morte e a morte de Quincas Berro D’Água é um dos textos mais agradáveis e engraçados que li. E os romances com foco sobre a mulher… bem, destes eu li apenas Dona Flor e seus Dois Maridos. Talvez por falta de tempo, ou por outras leituras mais urgentes, Gabriela: Cravo e Canela, Tereza Batista Cansada de Guerra e Tieta do Agreste ainda são livros que, num momento de retorno à ficção do mestre baiano, degustarei no futuro.

Mas o que me torna a tratar de Jorge é a ligação de sua obra ao cinema, no caso Dona Flor e Seus Dois Maridos, romance escrito em 1966. Não cairei no erro de dizer que o livro é infinitamente superior, até porque o filme tem qualidades próprias de sua arte. Mas cabe esclarecimentos, que minha paixão literária (talvez não tão grande quanto minha paixão cinematográfica) faz com que eu tome a liberdade de explicar.

O trabalho de Jorge Amado é um exercício de criatividade que apenas no campo literário é permitido encontrar. Logo na epígrafe temos citações que caracterizam a personalidade de cada protagonista: “Deus é gordo” (Revelação de Vadinho ao retornar da morte); “Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar” (Dístico na parede da farmácia do doutor Teodoro Madureira); “Ai!” (Suspiro de dona Flor); em meio a eles “A terra é azul” (célebre frase de Gagarin após o primeiro voo espacial, confirmando o espaço do real e da verossimilhança que adota Jorge, mesmo que faça uso do Realismo fantástico ao trazer da morte Vadinho, o mulherengo ‘incontornável’).

Só observando esses elementos, tem-se noção de que estamos diante de um retrato cômico e ao mesmo tempo tipicamente popular. A composição de uma narrativa que alterna descrições do cotidiano e cenas realistas da vida boêmia da Salvador dos anos 1940, pontuada por passagens reveladoras sobre comida e remédios (necessidades e prazeres do ser humano), acentua o tom nostálgico e ao mesmo tempo peculiar do povo Baiano.

O texto se divide em partes: a primeira revelando a morte, o velório e o enterro de Vadinho, primeiro marido de dona Flor; A segunda e terceira retrata o tempo de viuvez de Flor; A quarta, o casamento com o doutor Teodoro Madureira; E a quinta parte o conflito entre “espírito e matéria” (que o próprio Jorge Amado afirma que situações como essa somente são possíveis de acontecer na cidade da Bahia, acreditando quem quiser… e, esse humilde blogueiro, particularmente, acredita).

Dez anos depois do lançamento do livro, Bruno Barreto, em um lance comercial de mestre, lança o filme que narra a história de Vadinho, Flor e Teodoro, ao som de uma trilha sonora muito apropriada composta por Francis Hime e por Chico Buarque. Bom, para deixar claro a sinopse do filme, que segue os principais momentos do livro, é essa: Vadinho (Wilker) morre repentinamente no carnaval de 1943, deixando Dona Flor (Braga), sua mulher, desconsolada. Mas depois de um tempo, Flor casa com um farmacêutico, Teodoro Madureira (Mendonça), que é totalmente o oposto de Vadinho. Flor chama tanto pelo seu falecido marido na cama que ele acaba aparecendo.

As interpretações dos protagonistas são bastante envolventes e na medida certa das personagens. A mulher, mais uma vez, aparece como uma máquina de sexo – e Sonia Braga, no auge!, reforça essa tendência. Mas ainda assim, é-lhe permitido a escolha e a possibilidade de encontrar a felicidade completa, na afetividade, no furor carnal e nos negócios. Isso tudo revelado no cômico e no riso que tende a tornar insólito os relacionamentos, beirando a situações chanchadescas dos anos 1950, com o provocativo da pornochancada dos anos 1970.

A história, que se passa na década de 1940, pincela algumas referências aos integralistas, por exemplo, mas isso se perde no esquema de redemoinho narrativo do diretor. É preciso dizer que, ao lançar o filme em tempos de ditadura civil-militar e da pornochanchada que povoam os cinemas nacionais, contra a forte concorrência do cinema de Hollywood, o filme de Barreto é um êxito comercial de proporções antes nunca observadas para produções brasileiras. O que nos leva a conclusões talvez rasas, talvez óbvias, talvez inoportunas para o horário, talvez verdadeiras, mas certamente necessárias de serem ditas: o público expectador brasileiro aprecia boas histórias, principalmente as cômicas, com uma dose grande sexualidade à flor da pele. Confira!

Quando e Onde ver:
Dia 7 de Abril de 2009, 19h, com comentários dos acadêmicos do Curso de História (UNIFRA) Marcelo Santos Matheus e Max Pereira Ribeiro.
21º Ciclos de Cinema Histórico: Mulheres à Beira de uma Sessão de Cinema.
Auditório do CCSH – Centro; Rua Floriano Peixoto, 1184
Santa Maria, RS.
Entrada Franca

Macc Avaliação: 8

Bardot/Vadim uma relação cinematográfica em Et Dieu… Créa la Femme

Posted in Ciclo de Cinema Histórico, Drama on 03/04/2009 by cinemacc

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Et Dieu… Créa la Femme (… E Deus Criou a Mulher, FRA/ITA, 95 min., 1956). Direção: Roger Vadim. Roteiro: Roger Vadim; Raoul Lévy. Fotografia: Armand Thirard. Música: Paul Misraki. Elenco: Brigitte Bardot; Curd Jürgens; Georges Poujouly; Jean-Louis Trintignant; Jane Marken; Jean Tissier.

 
Há um filme de Jean-Luc Godard chamado Les Mépris (ou no português O Desprezo). Nesta película há uma mulher que é o retrato da ferocidade e do desejo sexual, ao mesmo tempo em que busca a necessidade do amor e da afirmação. O nome dela: Brigitte Bardot. Diria que as cenas iniciais desse filme de Godard, lançado em 1963, são algo de mais belo, provocativo e esplendido que a arte cinematográfica pode realizar até então. Quem não viu pe dever conferir. No futuro postaremos algo mais sobre esse filme.

Mas hoje, quero falar de filme com uma Bardot sete anos de O Desprezo. Diria uma Bardot de Vadim: … E Deus Criou a Mulher. Essa obra, já traz as prerrogativas que se tornariam básicas e tradicionais da figura da mulher segundo o diretor e segundo a atriz. Eles formavam um casal na época do filme, e a questões dessa relação podem ser conferidas em Bardot, Deneuve & Fonda: As memórias de Roger Vadim. O diretor trata do relacionamento com as três divas, mas o relato sobre Bardot é o mais picante: “Ela não conhecia absolutamente nada do amor, mas parecia uma mulher plenamente desenvolta, Tomou-me em seus braços e, muito suavemente, começamos a fazer amor (…) Brigitte perguntou: – Sou uma mulher de verdade, agora? / – Não muito – respondi. – Talvez uns vinte e cinco por cento. / Ela me olhou com um meio-sorriso à Mona Lisa, sonhando com os setenta e cinco por cento que esperavam por ela.” (p.32-33). Mas essa relação se torna cinema, sem perder o tom erotizante. 

O filme trata o seguinte: Em Saint Tropez, na década de 1950, Juliett (Brigitte Bardot) é uma órfã de 18 anos, liberal e marginalizada pela sociedade por ser sedenta de prazer. Ela é desejada por um milionário, Eric Carradine (Curd Jürgens), mas se sente atraída por um homem da região, Antoine Tardieu (Georges Poujouly). Porém, ela acaba se casando com o irmão deste, Michel (Jean-Louis Trintignant) que fará de tudo para controlá-la, mesmo não sendo uma tarefa tão fácil.

A obra é considerada uma precursora da Nouvelle Vague, que por sua vez, já podem ser encontradas em filmes dos fins dos anos 1940, com diretores como Alexandre Astruc (criador da teoria da câmera-stylo – “o cinema se libertará pouco a pouco da tirania do visual, da imagem pela imagem, do enredo imediato e concreto, para tornar-se um meio de escritura tão leve e tão sutil quanto a linguagem escrita.”) -, Jean-Pierre Melville (que em seu filme 24 heures de la vie d’un clown (1946) emprega métodos modernos assemelhados aos da Vague francesa), Agnès Varda (que, em 1955, realiza La ponte courte, que configura um sentido de um cinema com um frescor e liberdade humanística) e principalmente Roger Vadim e Louis Malle, os quais, respectivamente em 1956 e 1957, lançam …E Deus Criou a Mulher e Ascensor para o Cadafalso (Ascenseur pour l’échefaud) utilizam uma linguagem desamarrada dos cânones narrativos tradicionais.

Então, a obra de Vadim além de lançar o mito de Brigitte Bardot e registrar um plano de sua imagem nua, secando ao sol, faz do cinema também um meio de ressaltar o voyeurismo, o que causa escândalo e proibições, como veremos. Vadim, antecede elementos da Nouvelle Vague experimentando novas modalidades de produção e tecendo uma apologia da liberdade existencial do homem contemporâneo desvinculando-se do tratamento temático dos padrões ‘gramaticais’ estabelecidos. Evidentemente que apenas a partir de 1959, teremos o surgimento e a consolidação dessa Escola Cinematográfica Francesa, principalmente com os membros da Cahiers du Cinema e com cineastas como Alain Resnais propondo o rompimento da relação dramática do herói em oposição ao vilão, encaixando o homem em quadro existencial em que o bem e o mal são ficções puramente lógicas. Mas a Nouvelle Vague poderá ser tema de outros textos.

Enfim, é interessante mencionar que …E Deus Criou a Mulher foi o segundo filme (o primeiro foi Boneca de Carne, de 1956, dirigido por Elia Kazan) condenado pela Legião da Decência, organização ligada à Igreja Católica Apostólica Romana nos Estados Unidos, devido ao seu conteúdo sexual. Roger Vadim refilmou seu clássico nos Estados Unidos, em 1987, contando com Rebecca De Mornay e Frank Langella no elenco, mas sem o mesmo impacto e o tom picante-sexual do original. O que geralmente acontece em refilmagens desse tipo.

Quando e Onde ver:
Dia 3 de Abril de 2009, 19 h, com comentários da historiadora Marlete Golke e do acadêmico em História (UFSM) Vinicius Bertolo.
21º Ciclos de Cinema Histórico: Mulheres à Beira de uma Sessão de Cinema.
Auditório do CCSH – Centro; Rua Floriano Peixoto, 1184
Santa Maria, RS.
Entrada Franca

Macc Avaliação: 8,5