Arquivo de Fevereiro, 2011

Black Swan e a experiência sensorial de Aronofsky

Posted in Drama, Oscar 2011 on 20/02/2011 by cinemacc

Não entendo muito de música clássica, muito menos de balé. Então nem vou considerar as críticas negativas que o filme Black Swan (Cisne Negro) gerou por parte de bailarinos e especialistas na área ( http://bit.ly/hyqBF1 ). Muitos, inclusive, desconsideram que o cinema é uma arte que transfere uma realidade muito complexa para dentro da tela, suprimindo uma série de fatores em detrimento de um enquadramento mais ajustado a ficção, como acontece não apenas nesse filme de Darren Aronofsky, mas em outros que tematizam situações históricas, sociais e humanas. Em todo o caso, a obra do diretor vai além do gosto pelo balé: é um desafio psicológico de compreensão das densidades humanas.

A trama é ambientada nos bastidores do New York City Ballet, e a narrativa gira em torno de Nina (Natalie Portman, em atuação soberba!), uma bailarina que se vê diante da chance de interpretar o papel principal em uma montagem de “O Lago dos Cisnes”, de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893). Esse balé é construído em quatro atos e estreou em 1877, no teatro Bolshoi em Moscou. A obra está vinculada a corrente do Romantismo europeu, mas apresenta muitas características barrocas em sua composição, como um evidente choque entre bem e mal, claro e escuro, utilizadas de forma sistemática na composição visual e temática do filme.

A insegurança e a fragilidade de Nina encontram certa explicação no cuidado excessivo de sua mãe (Barbara Hershey), ao mesmo tempo em que é pressionada por seu mentor e coreógrafo Thomas (Vincent Cassel), vislumbra a desgraça da antiga “Rainha dos Cisnes” (Winona Ryder) e recebe a dúbia parceria da dançarina Lily (Mila Kunis).

Nina terá na troca dessas relações pessoais e na busca do seu íntimo o desafio de buscar a interpretação do papel que almeja, a “Rainha dos Cisnes”, tendo que interpretar simultaneamente o cisne branco (símbolo da pureza e ingenuidade) e o cisne negro (metáfora para a malícia, sensualidade e maldade).

A construção metafórica que se estabelece no embate dos cisnes (branco e negro) é o motivo que conduz o espectador a mergulhar no imaginário psicológico da personagem Nina. É a pureza, a delicadeza e a sensibilidade branda contra a explosão, a raiva e o desejo fervente. É quase uma guerra interior em um lago plácido. Alguns comentários apontam também para a visão da saúde http://bit.ly/e9pTdC , já que a protagonista apresenta sinais de esquizofrenia.

A exemplo do que fez no seu filme anterior The Wrestler (O Lutador), o diretor explora as angústias, os sonhos e as fragilidades do ser humano, perturbados por situações limite e constituídos de ações que visam a ambição do sucesso. Mesmo construindo personagens protagonistas complexos, esses só se desdobram e ganham destaque a partir das relações interpessoais com os coadjuvantes (Hershey, Cassel, Kunis e Ryder)

Assim, Aronofsky arquiteta uma narrativa complexa, desenvolvendo o ritmo pela constante mudança entre sonho e realidade, que tornam o filme uma experiência sensorial sedutora.

Black Swan é tão surpreendente quanto assustador.

Avaliação: 9

Um nocaute em The Fighter, de David O. Russell

Posted in Drama, Oscar 2011 on 19/02/2011 by cinemacc

Todo ano é assim: sempre há filmes que concorrem ao Oscar que a única forma de compreender as indicações está em algum desempenho individual ou do elenco, ou mesmo nas campanhas de marketing que são realizadas junto a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Ao olhar por esse prisma, comento The Fighter (no Brasil com o “brilhante” título O Vencedor), filme que vi esta semana e que recebeu 7 indicações ao prêmio (filme, diretor (David O. Russell), ator coadjuvante (Christian Bale), atriz coadjuvante (Melissa Leo e Amy Adams), edição e roteiro adaptado).

Inspirado nas trajetórias dos boxeadores Dicky Ecklund e Micky Ward, a obra traz uma história de família, no universo do boxe, com uma pitada de dramas individuais alicerçadas em um roteiro que simplifica problemáticas densas. O filme resgata um documentário realizado pelo HBO (High on Crack Street: Lost Lives in Lowell) sobre Dicky Ecklund (Christian Bale), que procura enfocar a derrocada de uma lenda do boxe para o vício nas drogas – em específico o crack. Dicky desperdiçou sua grande chance na carreira e agora, o seu meio-irmão Micky Ward (Mark Wahlberg) é a nova esperança na trajetória da família. A trama expõe as dores e os conflitos entre os irmãos, a mãe, o pai, enfim, entre todos que estão próximos de Micky e que o treinam e o auxiliam em suas lutas. Como todo filme de superação Micky terá que fazer escolhas difíceis como, por exemplo, entre seus familiares e a vontade de ser um verdadeiro campeão.

Pois aí está o problema maior do filme – estar centrado em Micky – Mark Wahlberg. Então vejamos:

Round 1: filmes de boxe merecem cenas bem filmadas, editadas, envolventes e repletas de emoção (não precisam necessariamente ter muitas cenas de luta!);

Round 2: biografias de boxeadores sempre levam em conta voltas por cima – com pontos de virada decisivos e densos. Mas em The Fighter, o protagonista é o coadjuvante! E a densidade do roteiro não justifica nenhum suor das inúmeras camisetas molhadas que aparecem na obra.

Round 3: Mark Wahlberg, que nunca fez nenhuma atuação digna, está em, provavelmente, a mais indigna das atuações. O cara era pra ser o herói da história, o sujeito vencedor, o motivo central pra a realização do filme e acaba por ser bisonhamente nocauteado pela mais ridícula das atuações nos últimos tempos. Não convence nem como filho, nem como namorado, nem como irmão, muito menos como lutador. Diria que é o pior dos protagonistas e dos antagonistas de todos os filmes indicados ao Oscar. Perde até para o pião de Inception! ]

Acabou a luta por Nocaute!!!

Bom, se você não viu The Fighter, cuide-se. Ele leva os espectadores naquele tipo de propaganda básica de dramas de superação “Inspirado em uma história real”.

O diretor David O. Russell [que dirigiu tempos atrás o provável primeiro filme que tem como pano de fundo a Guerra do Golfo, Three Kings (Três Reis)], tenta desenvolver o roteiro furado – mas indicado ao Oscar –, que cura um viciado em crack em apenas algum tempo de reclusão. A sensação que o filme provoca é que o vencedor acaba sendo o coadjuvante, Dicky, que tenta superar os clichês tradicionais da luta contra as drogas e o fracasso na carreira, mas o filme é simplista em dizer que o vencedor é o lutador protagonista, que consegue superar os desafios que se atravessam na sua frente, mas cujo objetivo está em se realizar como campeão mundial de boxe. Porém, o coadjuvante tem uma densidade que não se desenvolve e o protagonista é tão raso quanto um rio seco.

Bom, pra não dizer que quero só espancar um drama de boxe, destaco as atuações de Amy Adams como namorada do protagonista Micky, mas principalmente Melissa Leo e Christian Bale como respectivamente mãe e irmão mais velho de Micky. A cena em que a mãe busca Dicky consumido pelo crack, e ele cantarola I started a joke dos Bee Gees é emocionante.

Pena que faltou vencer o maior perigo de filmes com esse perfil: os clichês que estão na cara de um protagonista que não convence. Talvez seja para norte-americano ver… e crer…

Avaliação: 4