Volver: um retorno

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Volver (Volver, ESP, 121 min., 2006). Direção: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Música: Alberto Iglesias. Elenco: Penélope Cruz; Carmen Maura; Lola Dueñas; Blanca Portillo; Yohana Cobo; Antonio de la Torre; Chus Lampreave.

 

Premiações: Academy Awards®: Indicado Atriz (Penélope Cruz). BAFTA: Indicado Atriz (Penélope Cruz); Filme Estrangeiro. Cannes Festival: Melhor Elenco Feminino; Roteiro. Indicado Palma de Ouro. César Awards: Indicado Filme Estrangeiro. Golden Globes®: Indicado: Filme Estrangeiro; Atriz (Penélope Cruz).

 

Ok, quem já leu algum dos posts aqui escritos já pode perceber que não gosto da grande maioria dos filmes do sr. Pedro Almodóvar. Mas não vou cair na ranzinzisse de apenas destruir uma obra que, sim, tem méritos. E por isso escreverei um texto valorizando um de seus filmes, que inclusive, na minha avaliação, não é o melhor, diria até longe disso.

É importante dizer que considero Fale com Ela (2002) a obra-prima, o filme nota 10 desse diretor. O roteiro envolvente, a história que trata de solidões, e as possibilidades criativo-estéticas com referências ao cinema mudo, a sua própria obra e ao universo espanhol é algo admirável e difícil de se encontrar na cinematografia mundial.

Mas vou falar aqui de Volver, que de partida tem o mesmo nome de um tango composto e interpretado por Carlos Gardel, presente na trilha sonora. Em um livro de entrevistas lançado no Brasil em 2008, Conversas com Almodóvar, ele fala que esse filme é uma espécie de “ajuste de contas” necessário com sua infância, uma espécie de produção necessária para ele procurar novos voos. O diretor busca um retorno ao passado, parecendo inspirar-se em suas próprias memórias. Almodóvar, nasceu em La Mancha, que também é a cidade natal das protagonistas.  Assim, através de suas personagens, ele parece exorcizar seus próprios fantasmas da infância, dos parentes já idosos e da morte dos pais.

A história une o cômico, o dramático e o realismo fantástico. Raimunda (Cruz), a protagonista, trabalha como faxineira no aeroporto de Madri para sustentar o marido desempregado e a filha adolescente. Sole (Dueñas), sua irmã mais velha, trabalha em casa, onde instalou um salão de beleza. Ambas visitam rotineiramente o túmulo da mãe Irene (Maura), que morreu em um incêndio causado pelo calor e pelos fortes ventos da região. Certo dia, Irene reaparece. Inicialmente, só Sole a vê, mas na verdade é com Raimunda que ela tem assuntos pendentes a acertar.

Almodóvar aborda a relação de cumplicidade, separação e vínculo entre mulheres de uma mesma família, três gerações que, de alguma forma, tiveram problemas com os homens. Cabe às mulheres o papel de cuidar e proteger a família, inclusive da violência masculina. Em Volver, o diretor constrói um subtexto elaborado a partir do tema do abuso sexual, já abordado em Má Educação (2004), mas agora pelo viés feminino. O foco sob os sentimentos de medo, culpa e vergonha servem de desbobramentos para o roteiro que situa esse tema delicado construido a partir de uma linha tênue entre o melodrama e a comédia, predominando o tom leve e descontraído, mas que ganha intensidade no desfecho.

As atrizes, com destacadas atuações, desempenham personagens típicas dos filmes de Almodóvar, misturando extravagância, força e sensibilidade. Os planos de filmagem são bem próximos aos personagens, geralmente em lugares fechados, com destaque para certos closes que valorizam a beleza de Penélope Cruz.

Uma característica do cinema de Almodóvar é realizar homenagens a história do cinema, rememorando e retornando as suas paixões de infância, adolescência e madurez. Neste filme ele cita a obra Belíssima (1951), de Luchino Visconti que também trata a relação entre mãe e filha, o que constitui um belo elo temático entre os filmes.

Sim, Volver é uma obra com teor novelesco e adocicado. Sim, é um filme que não agradará a todos. Sim, é uma obra muito mais destinada a fãs do diretor. Sim, o filme tem qualidades, tem um bom ritmo, tem o sempre destacado uso das cores e tem uma boa história. Sim vale a pena ser visto porque Almodóvar é mestre em tocar em sentimentos e afetos que envolvem experiências profundas de cuidado e proteção. E sim, este também é um post de ajuste de contas com o cinema deste diretor espanhol, mas não me peçam para falar mais… por hora.

Quando e Onde ver:
Dia 9 de Abril, 19 h, com comentários do professor Guilherme Rodrigues Passamani.
21º Ciclos de Cinema Histórico: Mulheres à Beira de uma Sessão de Cinema.
Auditório do CCSH – Centro; Rua Floriano Peixoto, 1184
Santa Maria, RS.
Entrada Franca

Macc Avaliação: 8

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2 Respostas to “Volver: um retorno”

  1. Camila dos Santos Says:

    Querido Alexandre,

    Como uma almodovariana declarada, penso que seu texto foi o mais próximo possível de empatia sua pelo que Pedro Almodóvar faz. Sensível e crítico, tão bem dosado quanto o drama e a comédia em Volver, sem cair no pastelão! Meu querido, as mais calorosas e sinceras saudações!

  2. Tens razão, Fale com ela é a obra dele. Abração.

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