Dona Flor e seus Dois Maridos: menage à trois à baianês

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Dona Flor e seus Dois Maridos (Dona Flor e seus Dois Maridos, BRA, 110 min., 1976). Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Bruno Barreto; Eduardo Coutinho; Leopoldo Serran. Fotografia: Murilo Salles. Música: Francis Hime; Chico Buarque de Hollanda. Elenco: Sonia Braga; José Wilker; Mauro Mendonça; Dinorah Brillanti; Nelson Xavier.

 

Premiações: BAFTA: Indicado Revelação (Sonia Braga). Golden Globes®: Indicado Filme Estrangeiro. Gramado Festival: Melhor Direção; Trilha Sonora; Prêmio do Júri Designer de Produção. Indicado Filme.

 

Sou um apreciador da literatura de Jorge Amado. Seu livro Capitães de Areia está entre os meus favoritos dos romances nacionais. A novela A morte e a morte de Quincas Berro D’Água é um dos textos mais agradáveis e engraçados que li. E os romances com foco sobre a mulher… bem, destes eu li apenas Dona Flor e seus Dois Maridos. Talvez por falta de tempo, ou por outras leituras mais urgentes, Gabriela: Cravo e Canela, Tereza Batista Cansada de Guerra e Tieta do Agreste ainda são livros que, num momento de retorno à ficção do mestre baiano, degustarei no futuro.

Mas o que me torna a tratar de Jorge é a ligação de sua obra ao cinema, no caso Dona Flor e Seus Dois Maridos, romance escrito em 1966. Não cairei no erro de dizer que o livro é infinitamente superior, até porque o filme tem qualidades próprias de sua arte. Mas cabe esclarecimentos, que minha paixão literária (talvez não tão grande quanto minha paixão cinematográfica) faz com que eu tome a liberdade de explicar.

O trabalho de Jorge Amado é um exercício de criatividade que apenas no campo literário é permitido encontrar. Logo na epígrafe temos citações que caracterizam a personalidade de cada protagonista: “Deus é gordo” (Revelação de Vadinho ao retornar da morte); “Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar” (Dístico na parede da farmácia do doutor Teodoro Madureira); “Ai!” (Suspiro de dona Flor); em meio a eles “A terra é azul” (célebre frase de Gagarin após o primeiro voo espacial, confirmando o espaço do real e da verossimilhança que adota Jorge, mesmo que faça uso do Realismo fantástico ao trazer da morte Vadinho, o mulherengo ‘incontornável’).

Só observando esses elementos, tem-se noção de que estamos diante de um retrato cômico e ao mesmo tempo tipicamente popular. A composição de uma narrativa que alterna descrições do cotidiano e cenas realistas da vida boêmia da Salvador dos anos 1940, pontuada por passagens reveladoras sobre comida e remédios (necessidades e prazeres do ser humano), acentua o tom nostálgico e ao mesmo tempo peculiar do povo Baiano.

O texto se divide em partes: a primeira revelando a morte, o velório e o enterro de Vadinho, primeiro marido de dona Flor; A segunda e terceira retrata o tempo de viuvez de Flor; A quarta, o casamento com o doutor Teodoro Madureira; E a quinta parte o conflito entre “espírito e matéria” (que o próprio Jorge Amado afirma que situações como essa somente são possíveis de acontecer na cidade da Bahia, acreditando quem quiser… e, esse humilde blogueiro, particularmente, acredita).

Dez anos depois do lançamento do livro, Bruno Barreto, em um lance comercial de mestre, lança o filme que narra a história de Vadinho, Flor e Teodoro, ao som de uma trilha sonora muito apropriada composta por Francis Hime e por Chico Buarque. Bom, para deixar claro a sinopse do filme, que segue os principais momentos do livro, é essa: Vadinho (Wilker) morre repentinamente no carnaval de 1943, deixando Dona Flor (Braga), sua mulher, desconsolada. Mas depois de um tempo, Flor casa com um farmacêutico, Teodoro Madureira (Mendonça), que é totalmente o oposto de Vadinho. Flor chama tanto pelo seu falecido marido na cama que ele acaba aparecendo.

As interpretações dos protagonistas são bastante envolventes e na medida certa das personagens. A mulher, mais uma vez, aparece como uma máquina de sexo – e Sonia Braga, no auge!, reforça essa tendência. Mas ainda assim, é-lhe permitido a escolha e a possibilidade de encontrar a felicidade completa, na afetividade, no furor carnal e nos negócios. Isso tudo revelado no cômico e no riso que tende a tornar insólito os relacionamentos, beirando a situações chanchadescas dos anos 1950, com o provocativo da pornochancada dos anos 1970.

A história, que se passa na década de 1940, pincela algumas referências aos integralistas, por exemplo, mas isso se perde no esquema de redemoinho narrativo do diretor. É preciso dizer que, ao lançar o filme em tempos de ditadura civil-militar e da pornochanchada que povoam os cinemas nacionais, contra a forte concorrência do cinema de Hollywood, o filme de Barreto é um êxito comercial de proporções antes nunca observadas para produções brasileiras. O que nos leva a conclusões talvez rasas, talvez óbvias, talvez inoportunas para o horário, talvez verdadeiras, mas certamente necessárias de serem ditas: o público expectador brasileiro aprecia boas histórias, principalmente as cômicas, com uma dose grande sexualidade à flor da pele. Confira!

Quando e Onde ver:
Dia 7 de Abril de 2009, 19h, com comentários dos acadêmicos do Curso de História (UNIFRA) Marcelo Santos Matheus e Max Pereira Ribeiro.
21º Ciclos de Cinema Histórico: Mulheres à Beira de uma Sessão de Cinema.
Auditório do CCSH – Centro; Rua Floriano Peixoto, 1184
Santa Maria, RS.
Entrada Franca

Macc Avaliação: 8

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