Black Swan e a experiência sensorial de Aronofsky
Não entendo muito de música clássica, muito menos de balé. Então nem vou considerar as críticas negativas que o filme Black Swan (Cisne Negro) gerou por parte de bailarinos e especialistas na área ( http://bit.ly/hyqBF1 ). Muitos, inclusive, desconsideram que o cinema é uma arte que transfere uma realidade muito complexa para dentro da tela, suprimindo uma série de fatores em detrimento de um enquadramento mais ajustado a ficção, como acontece não apenas nesse filme de Darren Aronofsky, mas em outros que tematizam situações históricas, sociais e humanas. Em todo o caso, a obra do diretor vai além do gosto pelo balé: é um desafio psicológico de compreensão das densidades humanas.
A trama é ambientada nos bastidores do New York City Ballet, e a narrativa gira em torno de Nina (Natalie Portman, em atuação soberba!), uma bailarina que se vê diante da chance de interpretar o papel principal em uma montagem de “O Lago dos Cisnes”, de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893). Esse balé é construído em quatro atos e estreou em 1877, no teatro Bolshoi em Moscou. A obra está vinculada a corrente do Romantismo europeu, mas apresenta muitas características barrocas em sua composição, como um evidente choque entre bem e mal, claro e escuro, utilizadas de forma sistemática na composição visual e temática do filme.
A insegurança e a fragilidade de Nina encontram certa explicação no cuidado excessivo de sua mãe (Barbara Hershey), ao mesmo tempo em que é pressionada por seu mentor e coreógrafo Thomas (Vincent Cassel), vislumbra a desgraça da antiga “Rainha dos Cisnes” (Winona Ryder) e recebe a dúbia parceria da dançarina Lily (Mila Kunis).
Nina terá na troca dessas relações pessoais e na busca do seu íntimo o desafio de buscar a interpretação do papel que almeja, a “Rainha dos Cisnes”, tendo que interpretar simultaneamente o cisne branco (símbolo da pureza e ingenuidade) e o cisne negro (metáfora para a malícia, sensualidade e maldade).
A construção metafórica que se estabelece no embate dos cisnes (branco e negro) é o motivo que conduz o espectador a mergulhar no imaginário psicológico da personagem Nina. É a pureza, a delicadeza e a sensibilidade branda contra a explosão, a raiva e o desejo fervente. É quase uma guerra interior em um lago plácido. Alguns comentários apontam também para a visão da saúde http://bit.ly/e9pTdC , já que a protagonista apresenta sinais de esquizofrenia.
A exemplo do que fez no seu filme anterior The Wrestler (O Lutador), o diretor explora as angústias, os sonhos e as fragilidades do ser humano, perturbados por situações limite e constituídos de ações que visam a ambição do sucesso. Mesmo construindo personagens protagonistas complexos, esses só se desdobram e ganham destaque a partir das relações interpessoais com os coadjuvantes (Hershey, Cassel, Kunis e Ryder)
Assim, Aronofsky arquiteta uma narrativa complexa, desenvolvendo o ritmo pela constante mudança entre sonho e realidade, que tornam o filme uma experiência sensorial sedutora.
Black Swan é tão surpreendente quanto assustador.
Avaliação: 9

21/02/2011 às 12:00 am
[...] This post was mentioned on Twitter by Icaro Bittencourt and Melina Renz, cine macc. cine macc said: Black Swan de Darren Aronofsky é um filme que não deixa o espectador em cima do muro. http://bit.ly/e5us6B [...]
19/03/2011 às 11:31 pm
Nina tem mesmo jeito de um lago plácido, como escreves. E é uma guerra o que acontece dentro dela. Um conflito dilacerante que provoca, fascina e emociona o espectador.
Belo filme, Maccari! Concordo contigo