Um nocaute em The Fighter, de David O. Russell

Todo ano é assim: sempre há filmes que concorrem ao Oscar que a única forma de compreender as indicações está em algum desempenho individual ou do elenco, ou mesmo nas campanhas de marketing que são realizadas junto a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Ao olhar por esse prisma, comento The Fighter (no Brasil com o “brilhante” título O Vencedor), filme que vi esta semana e que recebeu 7 indicações ao prêmio (filme, diretor (David O. Russell), ator coadjuvante (Christian Bale), atriz coadjuvante (Melissa Leo e Amy Adams), edição e roteiro adaptado).

Inspirado nas trajetórias dos boxeadores Dicky Ecklund e Micky Ward, a obra traz uma história de família, no universo do boxe, com uma pitada de dramas individuais alicerçadas em um roteiro que simplifica problemáticas densas. O filme resgata um documentário realizado pelo HBO (High on Crack Street: Lost Lives in Lowell) sobre Dicky Ecklund (Christian Bale), que procura enfocar a derrocada de uma lenda do boxe para o vício nas drogas – em específico o crack. Dicky desperdiçou sua grande chance na carreira e agora, o seu meio-irmão Micky Ward (Mark Wahlberg) é a nova esperança na trajetória da família. A trama expõe as dores e os conflitos entre os irmãos, a mãe, o pai, enfim, entre todos que estão próximos de Micky e que o treinam e o auxiliam em suas lutas. Como todo filme de superação Micky terá que fazer escolhas difíceis como, por exemplo, entre seus familiares e a vontade de ser um verdadeiro campeão.

Pois aí está o problema maior do filme – estar centrado em Micky – Mark Wahlberg. Então vejamos:

Round 1: filmes de boxe merecem cenas bem filmadas, editadas, envolventes e repletas de emoção (não precisam necessariamente ter muitas cenas de luta!);

Round 2: biografias de boxeadores sempre levam em conta voltas por cima – com pontos de virada decisivos e densos. Mas em The Fighter, o protagonista é o coadjuvante! E a densidade do roteiro não justifica nenhum suor das inúmeras camisetas molhadas que aparecem na obra.

Round 3: Mark Wahlberg, que nunca fez nenhuma atuação digna, está em, provavelmente, a mais indigna das atuações. O cara era pra ser o herói da história, o sujeito vencedor, o motivo central pra a realização do filme e acaba por ser bisonhamente nocauteado pela mais ridícula das atuações nos últimos tempos. Não convence nem como filho, nem como namorado, nem como irmão, muito menos como lutador. Diria que é o pior dos protagonistas e dos antagonistas de todos os filmes indicados ao Oscar. Perde até para o pião de Inception! ]

Acabou a luta por Nocaute!!!

Bom, se você não viu The Fighter, cuide-se. Ele leva os espectadores naquele tipo de propaganda básica de dramas de superação “Inspirado em uma história real”.

O diretor David O. Russell [que dirigiu tempos atrás o provável primeiro filme que tem como pano de fundo a Guerra do Golfo, Three Kings (Três Reis)], tenta desenvolver o roteiro furado – mas indicado ao Oscar –, que cura um viciado em crack em apenas algum tempo de reclusão. A sensação que o filme provoca é que o vencedor acaba sendo o coadjuvante, Dicky, que tenta superar os clichês tradicionais da luta contra as drogas e o fracasso na carreira, mas o filme é simplista em dizer que o vencedor é o lutador protagonista, que consegue superar os desafios que se atravessam na sua frente, mas cujo objetivo está em se realizar como campeão mundial de boxe. Porém, o coadjuvante tem uma densidade que não se desenvolve e o protagonista é tão raso quanto um rio seco.

Bom, pra não dizer que quero só espancar um drama de boxe, destaco as atuações de Amy Adams como namorada do protagonista Micky, mas principalmente Melissa Leo e Christian Bale como respectivamente mãe e irmão mais velho de Micky. A cena em que a mãe busca Dicky consumido pelo crack, e ele cantarola I started a joke dos Bee Gees é emocionante.

Pena que faltou vencer o maior perigo de filmes com esse perfil: os clichês que estão na cara de um protagonista que não convence. Talvez seja para norte-americano ver… e crer…

Avaliação: 4

2 Respostas para “Um nocaute em The Fighter, de David O. Russell”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Melina Renz, maccinema. maccinema said: CineMacc voltando a ativa depois de um tempão! e com fome de luta: http://bit.ly/ffDGlk [...]

  2. Concordo com muito do que você apontou, discordando aqui ou ali. Em resumo, diria que a única indicação que o filme realmente merece é de atriz coadjuvante para Amy Adams. Bale e Leo são quase caricaturas, abraçando os excessos de atuação mais do que os personagens necessitam, vaidosos e indulgentes em suas interpretações. A direção e o roteiro falham ao permitir certas situações estúpidas e teatrais, como a mãe e as filhas indo à casa da namorada de Mick, ou as sete irmãs repetindo e completando o que uma fala delas fala… ai, ai. Um filme de boxe com nenhuma luta que pareça mesmo uma luta, com os efeitos sonoros dos golpes se sobressaindo ao que se vê na tela. Uma montagem bem normalzinha, que só vale menção mesmo nos minutos finais. Saber que Christopher Nolan e Lee Smith ficaram de fora e trabalhos tão medíocres quanto os desse filme entraram é lamentável. Achei um bom filme, apenas. Dou 6/10, e vou escrever também sobre ele no meu blog.

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